As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A graça da coisa está na torcida

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 20h59

9/10/2007

Muita gente achava que, em função da superioridade do São Paulo, o desfecho
do Campeonato Brasileiro seria chocho, sem graça como cerveja quente ou pão
dormido. Eu mesmo tinha essa impressão. Mudei de idéia. Acontece que a luta
pelas vagas da Libertadores está muito acirrada. E a batalha contra o
descenso também. Só não vejo é muita gente fazendo questão da tal
Sul-Americana. Até prova em contrário, essa “luta” reside apenas na retórica
dos comentaristas. Aliás, abrindo um parêntese, parece muito fácil fazer
esse torneio “pegar” – bastaria que sua conquista valesse uma vaga na
Libertadores do ano seguinte. Aí sim, vocês iriam ver como todo mundo ia
querer participar.
Mas, enfim, acho que nem é tanto a disputa pelas vagas da Libertadores e
contra o rebaixamento o que vem esquentando um campeonato cujo líder guarda
(ainda) grande distância em relação ao segundo colocado. É a torcida que
anima essa reta final. Ou pelo menos algumas delas. Sem falar nas sempre
aguerridas galeras do Grêmio e do Inter, no Sul, e as do Nordeste, sempre
fervilhantes, foram as do Corinthians e do Flamengo que mostraram sua força
na semana que passou.
Ora, são os dois mais populares do País. E ambos com times e campanhas nada
animadores. O Corinthians continua na zona de rebaixamento e o Flamengo
vegeta em insignificante 13º lugar. Tecnicamente, são duas lástimas. E, no
entanto…que festa linda fez a torcida do Mengo na vitória contra o São
Paulo no meio da semana. E como foi bonita, pá, a festa corintiana no
triunfo sobre o líder no domingo. Talvez seja coincidência que as duas
torcidas tenham resolvido apoiar para valer seus times contra o virtual
vencedor do Brasileirão 2007, com entusiasmo tal que pareciam ser eles,
corintianos e flamenguistas, que estavam a caminho do título e não o
adversário.
Coincidência ou não, derrotar o campeão, carimbar a faixa do vencedor, tem
gostinho especial e sempre foi um dos grandes prazeres de quem não pode
chegar em primeiro. Uma consolação, dirão os objetivos, mas, enfim, o
futebol também é feito dessas compensações simbólicas. E, claro, na fria
matemática, os três pontinhos que corintianos e flamenguistas contabilizaram
às custas do São Paulo bem que podem ajudar em suas posições na tabela.
Motivos para comemorar não faltavam. Afinal, os dois eram zebras absolutas,
mesmo que as pessoas viessem com aquela frase antiga de que clássicos são
clássicos, e vice-versa. Será que rivalidades históricas equilibram equipes
desiguais?
Porque mais notável ainda que o resultado é que as torcidas tenham
acreditado na vitória e incentivado seus times. Essa fé tem poucos paralelos
na experiência humana. Ou não é contra toda a lógica supor que um time como
o do Flamengo possa ganhar do São Paulo? Ou que um Corinthians em crise
profunda possa realizar proeza como aquela no Morumbi, com o já histórico
gol de Betão no finalzinho do jogo? É a crença no sobrenatural, em estado
bruto.
Em meio à emoção, não faltam lances cômicos. Nenhum deles, imagino, se
compara à volta de Cuca ao Botafogo. O técnico saiu depois da derrota para o
River Plate e assumiu Mário Sérgio, que dirigiu o time em três jogos e
perdeu os três. O que se faz? Traz-se de volta o Cuca, como se nada houvesse
ocorrido. Não sei bem por quê, mas sinto que esse episódio diz muito sobre o
nível gerencial dos clubes no Brasil

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: