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A graça do gol

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 23h04

Ninguém pode dizer, em sã consciência, que esta primeira rodada do Campeonato Paulista tenha sido uma festa para os olhos de um apreciador de futebol. Equipes ainda meio tortas, fora de forma, desfalcadas, desentrosadas – tudo isso de certa forma era esperado nesse início de temporada. Em alguns casos, houve time que superou as expectativas e foi pior do que se imaginava. Não vamos desanimar.
Sim, porque apesar disso tudo, não é que tivemos momentos muito interessantes? Por exemplo, o Santos, sem oito titulares, passeou no jogo contra o Linense, e pelo menos um dos quatro gols que marcou foi muito bonito. Escapada de Zé Love pela esquerda e toquinho esperto na saída do goleirão, que foi mal no lance. Adilson Batista jogou com três atacantes, mostrando disposição de dar continuidade à filosofia de jogo ofensiva do Peixe.
Mas o momento mais surpreendente (e bonito) da rodada, claro, foi o gol olímpico, de Roberto Carlos contra a Portuguesa. O lance teve aqueles ingredientes que agradam em cheio o boleiro amante da arte do futebol. Foi misto de técnica refinada e pura malandragem. Enquanto o goleiro da Lusa se distraía orientando a defesa para a cobrança de escanteio, Roberto cobrou depressinha, com o lado de fora do pé, bola baixa, que fez a curva improvável e entrou na meta. Houve ainda a participação de um jogador do Corinthians, que voltava da linha de fundo e abriu as pernas para deixar a bola passar. Na opinião do comentarista de arbitragem da Globo, Renato Marsiglia, esse fato torna o lance irregular. Mas não lhe tira o mérito, se não quisermos nos ater à fria letra da lei. E muito menos lhe tira a graça – no sentido amplo do termo.
O que é a graça? Aquilo que surpreende, que sai do esquadro, da “normalidade”, da rotina do jogo. A graça tem algo de espiritual, é como uma iluminação, a exposição de uma possibilidade que não sabíamos existir. Tem algo de cômico também. Faz rir. Garrincha fazia a torcida rir, ao entortar seus “joões”. Pelé fazia rir, ao se enganchar num adversário para simular uma falta dentro da área. A graça pode vir de um drible, de um passe inesperado, de uma malandragem genial. Pode ser um gol como o de Roberto, o primeiro gol olímpico em sua longa e vitoriosa carreira. Gol olímpico é sempre uma maravilha, desafia a linearidade do pensamento. Para o leigo, parece algo impossível. Pelas leis da física é pensável, mas é muito difícil. Quando ainda inclui um ingrediente de malícia, como foi o caso neste gol do Corinthians, ele se torna ainda mais fascinante.
Enfim, esses momentos, para uma rodada de abertura, estão mais do que bons.
O que ainda não dá é para fazer prognósticos em relação aos grandes que, para ser franco, se bateram contra adversários muito fracos. Quer dizer: infelizmente já dá para falar alguma coisa do Palmeiras. Se Santos, São Paulo e Corinthians, com mais ou menos brilho, fizeram a lição de casa e já embolsaram três pontos, o Palmeiras empacou diante do Botafogo de Ribeirão Preto – e jogando em casa. Na estreia, o time de Felipão ganhou sua primeira vaia da torcida. Outras virão? Como as coisas não vão exatamente lá muito bem pelos lados do Parque Antártica, até o Palmeirinhas já foi desclassificado da Copa São Paulo. Convenhamos: é preciso caprichar na ruindade para cair na primeira fase da Copinha. E os meninos do Palmeiras dançaram diante do velho Nacional, da rua Comendador Souza, sim senhor!
Com eleição pela frente, o Palestra ainda tem muito tempo para se aprumar e fazer de 2011 um ano diferente de 2010. Mas é melhor não facilitar muito, não. Mesmo porque, com crise política ou sem, a turma do amendoim continua sempre atenta e vigilante.

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