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A grana gira enquanto a bola rola

Luiz Zanin Oricchio

30 de dezembro de 2011 | 00h09

Dizendo que não adiantava nada, Muricy acabou reclamando de novo do calendário brasileiro. Responsabilizou-o pela exaustão do time, que perde um atleta a cada jogo. Agora foi Ganso. Antes, Elano, Léo, Arouca. Cada partida é uma decisão, com o agravante de viagens longas e desgastantes. O Santos está estropiado. Só não vê quem não quer.

O problema do futebol é que tudo pode ser interpretado de pelo menos duas maneiras opostas. Contra toda a evidência, Tite disse que o time adversário não lhe pareceu cansado. Muito pelo contrário. Entende-se. Se ele admitir que joga contra um adversário extenuado, uma eventual vitória ficará desvalorizada. Se perder, então, fica feio demais. É como brigar com bêbado. Se bate, é covardia; se apanha, um vexame.

Do outro lado, suspeita-se também das palavras de Muricy. Ao dizer que o time está em frangalhos, justifica-se de antemão para eventuais fracassos. E, se ganhar, as vitórias serão épicas.

Todos nós (faço a autocrítica e me incluo entre os pecadores) já nos pegamos minimizando esse desgaste. “São jovens, ganham demais, que mal tem jogar duas vezes por semana?” Evocamos mil outras razões, inclusive o futebol do passado, em que não havia essas frescuras. E nos esquecemos de que as exigências físicas do futebol contemporâneo são muito maiores.

O que precisaríamos fazer seria isolar os fatos do fogo cruzado de visões preconceituosas e interesses contraditórios e pensar com lucidez no que está acontecendo. Parece óbvio que se joga demais, e não apenas no Brasil. Isso acontece em toda parte. Não faz muito tempo, dizíamos que o nosso calendário era criminoso e o dos europeus, racional. Hoje, ambos são loucamente intensos. Joga-se demais. Treina-se de menos. Não se descansa. E o corpo pode ser jovem e atlético, mas não é máquina. Acaba por pifar. É o que está acontecendo, diante dos nossos olhos.

Se nem quisermos levar em consideração o sacrifício dos atletas, podemos ser bem pragmáticos e dizer que o espetáculo está sendo prejudicado. Com a sobrecarga, os times não rendem o que poderiam. O nível do futebol cai.

E daí?, perguntam os donos da bola. Há razões para esse grande número de jogos. O futebol torna-se cada vez mais caro e precisa ser financiado por essa maratona de jogos. A TV, a frequência aos estádios, a venda de camisas e bugigangas – tudo depende da paixão clubística, que tem de ser turbinada por uma exposição maciça e concentrada dos times. É assim em toda parte. Joga-se, joga-se, joga-se, sem tréguas e, nos centros mais desenvolvidos, até as pré-temporadas se tornaram espetáculos para o público internacional. É a regra do jogo, de um jogo mais pesado que o da bola. O jogo do dinheiro, cujas regras são flexíveis e adaptáveis a qualquer circunstância, e no qual só interessa lucrar.

Mesmo assim, algumas medidas básicas poderiam ser tomadas para, pelo menos, minimizar os efeitos da maratona enlouquecida. Por exemplo, por que não racionalizar um pouco mais os campeonatos regionais, reduzindo o número de participantes? Por que não distribuir a Libertadores, a Copa do Brasil e a Sul-Americana ao longo do ano para evitar que fases decisivas se encavalem? Seriam apenas medidas de bom senso, paliativas, mas que poderiam significar algum alívio nesse mundo voraz em que vivemos. Mas ninguém faz nada e os dirigentes, que se queixam quando seus jogadores se esfalfam, são os mesmos que concordam com o calendário proposto pela CBF e pelas federações estaduais.

Foi Muricy que, em toda simplicidade, matou a charada: “Não adianta falar porque ninguém vai fazer nada: o futebol virou um grande negócio”. Quanto mais a bola rola, mais a grana gira. O ser humano é que está errado por não aguentar o tranco.

Boleiros, 10/5/2011

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