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A grande novidade

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 23h01

Não sei e ninguém sabe quem vai ser campeão paulista. Mas desde já se pode
dizer que a novidade deste ano não é o Corinthians de Nilmar, o Palmeiras de
Edmundo, o São Paulo de Rogério Ceni ou o Santos de… bem, em falta de
craques, de Vanderlei Luxemburgo. A grande novidade do Paulistão-2006 é o
Noroeste de Bauru.
Não apenas porque, passada mais da metade do campeonato o Norusca continua
lá, rondando a ponta da tabela, mas porque o faz jogando bem e bonito. A
partida mais agradável a que assisti neste fim de semana foi aquela que o
Noroeste perdeu para o Palmeiras por 3 a 1. Perdeu, como poderia ter
empatado ou mesmo ganhado. Não é que tenha jogado de igual para igual com o
grande da capital – jogou melhor. Atacou mais e de forma consistente.
Esbarrou ora na falta de pontaria dos atacantes ora no goleiro Sérgio, que
fez uma partida à altura de São Marcos, o titular. Mas o Noroeste atacou,
atacou e atacou.
Aprendo agora que a folha de pagamento do Norusca é R$ 300 mil por mês, que
é o salário de Tevez no Corinthians e menos do que o Luxemburgo ganha no
Santos. Aprendo também que há o temor na cidade de que esse belo time seja
uma chuva de verão, que passa e se desmancha rapidamente. Bem, se for assim
ele não será uma exceção, porque a falta de continuidade tem sido o mal
maior do futebol brasileiro, em clubes “grandes” ou “pequenos”.
De qualquer forma, dure enquanto durar, o fenômeno Noroeste terá sido um
refresco nesse início de temporada. Para quem já anda de bode com
celebridades que atuam na Europa, e aparecem por aqui apenas para vender de
celulares a contas bancárias, é sempre um alívio ver um time formado por
pessoas que se ocupam tão somente de jogar bola. E o fazem com categoria e
aplicação, colocando os grandes contra a parede. Salve o Norusca.
ESTILOS
Na contramão do Noroeste, o Santos colhe seus pontinhos com um sistema
defensivo ultrafechado. Com elenco mediano, Luxemburgo mantém o time entre
os primeiros, mas contraria toda a tradição do clube. Tradição? É isso aí:
clubes têm tradição de jogo, e a do Santos vem do tempo de Pelé, revivida
depois na era dos Meninos da Vila e, finalmente, na curta primavera de Diego
& Robinho.
A torcida passa esse ideal de jogo de uma geração para outra e cobra a sua
aplicação no time atual. A tradição do Santos é o toque de bola refinado e a
força do ataque. E ela foi descartada, pelo menos por enquanto. Montando um
novo time, Vanderlei optou pelo futebol de resultado, no qual 1 a 0 é
goleada.
Isso não quer dizer que tradições não possam ser mudadas com o tempo. A
tradição do Corinthians, forjada em anos de sofrimento, é a raça. Mas a
torcida se adaptou bem ao jogo mais equilibrado, de posse de bola, de Carlos
Alberto Parreira. A tradição do Palmeiras, pelo contrário, era o jogo
clássico e cadenciado da Academia. Mudou para um estilo mais aguerrido na
era Felipão. Hoje, quando o time não vai bem, a torcida verde cobra raça –
como fazia a do Corinthians. Parreira e Scolari comandaram em períodos
vitoriosos. E são as vitórias seguidas que permitem algo tão grave como a
mudança de uma tradição. Isso é possível enquanto os times ganham. Depois o
rio tende a voltar ao seu leito.
PARREIRA
Assisti ao Parreira no Redação SporTV. O técnico é ave rara no universo do
futebol – educado, culto, dotado de bom senso. É fácil concordar com quase
tudo o que diz. Sobra, ao menos para mim, alguma coisa que não desce.
Parreira é fã de boleiros tarimbados, no que concordo. Na entrevista, elogia
uma modalidade específica da experiência. Cita Adriano, que apesar de jovem
já tem vários anos de Europa. Cita Robinho, agora ungido pela camisa do Real
Madrid. Cita Cicinho, já melhor depois que deixou o São Paulo. Parece que a
experiência de jogar em times brasileiros não conta. O jogador nasce quando
atravessa o Atlântico. Para ele, Pelé e Garrincha devem ter sido jogadores
incompletos.

28/2/2006

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