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A hora do Leão

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h33

6/3/2007

Nós vivemos a época das opiniões definitivas. O que não deixa de ser
curioso, porque também é a época do relativismo e, desse modo, até como
reação, as pessoas opinam rapidamente, entrincheiram-se em suas “verdades
pessoais” e fecham a cabeça para tudo o que possa contrariar sua pequena
verdade. No mundinho do futebol não é diferente.
Por exemplo, já se formou o consenso de que o Leão é um técnico superado. É
a caça a ser abatida. E não faltam motivos para isso. Primeiro, o rendimento
do time do Corinthians, muito abaixo do que se esperava. Verdade que, visto
de perto, o Timão tem um elenco sofrível, mas será tão destoante da medíocre
média nacional? Tenho minhas dúvidas. Em todo caso, não era para o
Corinthians estar fazendo essa campanha péssima no Paulistão. A tendência,
então, é responsabilizar o técnico, como se a bagunça administrativa do
clube nada tivesse a ver com o que se passa dentro de campo.
Segundo, Leão tem se incompatibilizado com árbitros e se queixado
sistematicamente de que seu time é prejudicado. Verdade. Mas, devemos
refletir sobre esse ponto. Quem aí não está de acordo sobre a terrível
fragilidade da arbitragem brasileira? Acontece que futebol é esporte de
macho e, então, queixar-se, mesmo que de maneira justa, pode parecer
fraqueza, desculpa esfarrapada, coisa de gente ranheta e mesquinha.
Por último, e isto é fatal, Leão se indispôs com a imprensa, chegando ao
absurdo de cometer uma indelicadeza machista com uma repórter. Bem, no tempo
da comunicação de massa, brigar sistematicamente com quem produz o
noticiário não pode ser considerada a política mais inteligente para um
homem público.
Com tudo isso, Leão construiu para si a imagem de uma figura rígida e
antiquada. Sua reação depois do clássico com o Palmeiras só veio
consolidá-la. Se desta vez não criticou a arbitragem (e como poderia, depois
do baile que levou?), não perdeu a viagem e voltou a sua artilharia para um
adversário – Valdivia. Sim, o meia chileno que atormentou a defesa
corintiana com seus dribles, foi alvo de crítica velada de Leão, porque seus
dribles poderiam ser interpretados como menosprezo ao adversário. Pode? No
país do futebol criticar alguém por mostrar habilidade?
Tudo isso leva a crer que Leão seja um caso perdido, não é? Porém (e sempre
há um porém, como dizia o grande Plínio Marcos) por que não podemos ter a
humanidade de pensar no Leão de poucos anos atrás? Refiro-me ao Leão que
treinou o Santos de 2002 e revelou ao País os talentos de Elano, Alex,
Renato, e da dupla Diego e Robinho. No contato com esses garotos criativos e
irreverentes, Leão rejuvenesceu, abriu-se, mostrou senso de humor antes
insuspeitado. Para acompanhar os jovens, tornou-se ele mesmo jovem. Recebi
um e-mail outro dia, dizendo assim: “Também, com esses jogadores, até eu…”
Certo, mas o chefe que deixa aparecer o talento é talentoso ele próprio.
Chefes medíocres costumam reprimir tudo que seja diferente do usual. Leão
teve a coragem de abrir-se ao novo e esse mérito ninguém lhe tira.
Eu fico pensando se, nesse momento de solidão, convivendo entre Dualibs e
Duprats, não seria legal para o Leão relembrar essa primavera santista. Não
com saudosismo, porque a nostalgia não leva a nada e nem as situações se
repetem, mas como fonte de inspiração. Bom humor, criatividade, alegria
podem não resolver tudo, mas tornam a vida melhor e mais digna de ser
vivida. Além disso, a alma leve é mais lúcida e pensa melhor. Leão e o
Corinthians precisam dessa leveza mais do que tudo.

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