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A hora e a vez de Adriano Leite Ribeiro

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h26

Amigos, o cinema americano nos viciou no tema da segunda chance. Lembram da história clássica do xerifão, rápido como corisco no gatilho, que acabou vivendo seu mau pedaço de vida, aderiu ao jogo e ao uísque de milho, foi ridicularizado no saloon, mas um belo dia tirou a ferrugem do Colt e do amor próprio, liquidou o bandido e restabeleceu a moral da cidade, desaparecendo no horizonte enquanto a tela exibia o clássico pôr do sol e o inevitável The End? Quem não se emociona, embora tenhamos visto mil variantes da mesma coisa? Para não dizer que tudo isso é exclusividade dos gringos, a segunda chance é tema de um clássico da literatura brasileira, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa, também levado ao cinema na genial recriação do diretor Roberto Santos. Como se lembram, também Matraga abusou da sorte, fez das suas e se deu mal. Mas no momento propício, comportando-se como herói, resgatou a sua moral. Teve a sua vez e a sua hora.
Se me perdoaram a literatice e menções ao cinema do parágrafo anterior, vocês já perceberam aonde quero chegar. Sim, porque o nosso glorioso Sport Clube Corinthians Paulista parece ter se especializado na arte de acolher personagens desacreditados que, vestindo sua camisa, veem chegar a sua hora e vez de maneira totalmente improvável. Resgatam-se perante a opinião pública e, acima de tudo, perante a si mesmos. Foi o caso de Ronaldo. Parece ser o caso de Adriano. Às vezes parece até má ficção. Mas tudo é verdade, como dizia um certo Orson Welles.
Falo, claro, do gol contra o Atlético Mineiro, o gol que todos comentam pelas repartições, pelas esquinas, botecos e mesas redondas. O gol salvador do Corinthians, que parecia destinado ao empate no Pacaembu e viu o Imperador renascer numa corrida pouco crível, receber a bola açucarada do Emerson Sheik, bola doce, mas ainda assim difícil, e colocá-la fora do alcance do goleiro Renan, no único e reduzido espaço disponível para fazê-la entrar na meta atleticana. Gol de quem sabe como tratar a bola e, portanto, dela recebe em troca afeto e carinho, mesmo que esporadicamente. O gol que, caso se confirme o favoritismo do Corinthians, será cantado nas rapsódias do Parque São Jorge como “o gol do título”.
Claro, essas coisas não resistem à menor análise racional. Quem for campeão, terá sido porque acumulou, ao longo do ano, ponto sobre ponto para que, na conta final, tivesse mais que todos os seus concorrentes, e não porque marcou um gol numa determinada partida aos 43 minutos do segundo tempo. O Corinthians não será exceção dentro dessa racionalidade do sistema de pontos corridos do campeonato. Haverá quem, com mais razão, cite aquela arrancada fulminante do início do campeonato, quando o time de Tite pôde forrar a poupança que o nutriu no tempo das vacas magras, no tempo dos altos e baixos da disputa.
Esse é o lado racional, que deve ser levado em conta. Porém, no futebol, como na vida, precisamos de outro tipo de narrativa, tão verdadeira, ou mais, quanto a frieza da análise lógica. É aqui que entram os heróis, essas pessoas predestinadas que, em algum momento, mesmo que seja apenas em um único e reles momento, brilham e realizam alguma coisa que parece acima do comum mortal.
É aqui onde entra Adriano Leite Ribeiro que, após sua façanha, lembrou-se de que havia um ano e cinco meses não balançava a rede. Tinha essa conta de cabeça, precisa. Devia refazê-la dia após dia. Somava sempre mais um dia de abstinência a todos os outros que compõem o longo estio do jejum, até que parecesse não ter mais fim. Para ele não foi apenas um gol. Foi uma libertação. Quando a segunda chance se apresentou, Adriano a ela se agarrou com a gana do herói. Com a obstinação de um náufrago.

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