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A invenção que faz a diferença

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 22h45

Tenho a impressão de que não houve nenhum jogo memorável no final de semana.
Mesmo assim, certos lances chamaram a atenção. Por exemplo, alguns toques de
bola de Tevez no chocho 1 a 0 do Corinthians contra o América. Ou os dois
passes de Romário no também insosso 1 a 1 entre Vasco e Botafogo. Ou o
golaço de Diego Tardelli na pouco empolgante vitória do São Paulo por 2 a 1
sobre o União São João. São momentos que, se não valem o espetáculo, pelo
menos o justificam.
Tevez jogou menos do que a expectativa criada para a sua estréia. Carlos
Alberto esteve melhor do que ele. Mas, quando teve a bola nos pés, o
argentino disse a que veio. Deixou Carlos Alberto na cara do gol, jogada que
originou o pênalti e a vitória do Corinthians. Em outros lances, mostrou que
procura soluções originais para os problemas da partida, o que é a marca dos
jogadores diferenciados. Ele cria o imprevisível; quer dizer, é antídoto
contra a mesmice e o tédio do jogo.
O mesmo se pode dizer de Romário, tido como acabado para o futebol. E talvez
esteja mesmo, se você levar em consideração que uma partida de alto nível
exige um estado atlético de que o Baixinho já não dispõe. Mas o que vale
mais? Um maratonista capaz de correr 90 minutos sem alterar o ritmo da
respiração ou aqueles dois passes para o Alex Dias, um dos quais redundou no
gol do Vasco? Pura arte.
Diego Tardelli, atleta de talento mas de carreira irregular, vem fazendo um
excelente início de campeonato. Já anotou cinco gols em quatro jogos. E o de
domingo foi uma pintura, um chute indefensável de fora da área, no ângulo.
Romário está em fim de carreira e, quando parar de fato, terá seu lugar de
honra como um dos grandes do futebol pentacampeão. Tevez é jovem, mas já
consagrado. Foi eleito o melhor da América do Sul e todo mundo conhece seu
desempenho, pelo Boca Juniors e pela seleção argentina. Tardelli é ainda uma
promessa.
Os três são jogadores que costumamos chamar de “polêmicos”. Gostam da noite,
gostam de mulher, falam o que vem à cabeça, não costumam baixar a crista
como colegiais pegos em falta. São bad boys assumidos, ainda que Tardelli
esteja interpretando o papel de aluno comportado na escolinha do professor
Leão. Sem comparar um com o outro, diria que esses rebeldes trazem para o
campo de jogo a centelha da invenção. São o sal da terra num futebol já meio
burocratizado pelo excesso de profissionalismo.
MENOS UM
A invenção se complementa com a objetividade tática, virtude de que Elano é
exemplo acabado. Ele não jogou bem na sua partida de despedida do Santos, o
medíocre 1 a 1 contra a Portuguesa Santista. Talvez traído pela emoção do
adeus, ficou aquém de si mesmo. Afinal, é (era) um dos jogadores mais
regulares do Peixe. Desconfio que a torcida sentirá sua falta. Elano era
chamado de curinga da Vila porque sabe jogar em várias posições. Atuou de
volante, quebrou o galho na lateral-direita e, na falta de um especialista,
brincou como centroavante. Mas sua melhor função é a de meia avançado, que
arma o jogo e se transforma rapidamente em terceiro atacante. Chuta com
eficiência, dribla bem e é solidário, pois tem o ego sob controle. Versátil
e taticamente útil, vive aos 24 anos o auge da carreira. Vai sumir no
Shaktar Donetsk da Ucrânia, com US$ 3 milhões de consolo no bolso, segundo
se noticia. O Santos fica com US$ 7 milhões. É muito? É pouco? Depende do
ponto de vista. Para ele, pode ser o início da “independência financeira”,
expressão predileta dos boleiros patrícios. Para o clube, um reforço no
caixa. Mas para o time é muito ruim. Sem ele, o Santos fica mais fraco. E o
futebol jogado no Brasil, mais pobre.

1/2/2005

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