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A lição do Vasco e o fim do complexo

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 23h18

Amigos, continuamos sem saber quem será o campeão brasileiro, mas tudo indica que o título será decidido no olho mecânico entre Corinthians e Vasco. O Corinthians segue líder, sem convencer, com o Vasco nos calcanhares, com o mesmo número de pontos e em segundo lugar apenas porque tem uma vitória a menos.
Ganhar campeonato é sempre bom, mas desconfio que, para o Vasco tenha gosto especial, caso vença. Com um dado adicional: o time de São Januário está dando uma lição a todos. Abalando algumas de nossas certezas, o que é sempre bom. Uma delas: time que está garantido para a Libertadores perde a motivação, como sempre afirmamos. Perde mesmo? Não é o que acontece com o Vasco. Venceu a Copa do Brasil e tem vaga no torneio mais cobiçado do continente em 2012. Vem da batalha épica pela classificação na Sul-Americana (5 a 2 contra o Universitário, do Peru, revertendo os 0 a 2 da primeira partida) e acaba de vencer o clássico com o Botafogo por 2 a 0. Segue firme na luta.
O que mantém o time nesse ritmo de combustão acelerada? Há várias hipóteses. A doença do técnico Ricardo Gomes teria dado uma liga forte ao elenco, unindo-o para conseguir todos os triunfos possíveis. Há também, suspeito, um espírito geral de pajelança em relação à era Eurico Miranda, o rebaixamento para a Segunda Divisão, etc. Na época de Eurico, o Vasco era vítima de uma antipatia generalizada, pagando a conta por seu presidente, protótipo de cartolagem autoritária, ultrapassada e truculenta. Agora revive e ganha simpatias generalizadas ao ser dirigido por seu antigo ídolo, Roberto Dinamite. Na época de Eurico, Dinamite chegou ter a entrada barrada em São Januário, veja só.
Sejam quais forem os motivos, a equipe do Vasco dá uma aula de amor à camisa e profissionalismo (quem disse que se excluem?). Clube grande, em boa fase, tem de tentar ganhar tudo. Até torneio de peteca, bocha e cuspe à distância. Essa saudável ambição é que deixa a torcida feliz, enche a sala de troféus e coloca bases para um futuro melhor. Dormir sobre os louros de uma conquista é para preguiçosos. Estes dificilmente fazem história.
E, por falar em Vasco, e em fazer história, fiquei muito feliz com a declaração de Dedé, o zagueirão artilheiro. Seguindo o exemplo de Neymar, Dedé pretende ficar no Brasil e em seu clube até pelo menos a Copa de 2014. Para que sair agora, se o futebol está aqui? A se confirmar a permanência do jogador, que já tem propostas de times italianos, será o primeiro sintoma de um círculo virtuoso iniciado com o fico do craque santista. Outros talvez se animem pelo menos a adiar a saída, melhorando assim a qualidade das nossas disputas internas.
Ninguém é ingênuo de achar que tudo isso se deve a um surto extemporâneo de patriotismo. O fato é que o País vem melhorando de forma consistente e existe uma crise na Europa, principal importadora de jogadores de ponta. Tudo vem junto e os boleiros começam a perceber que, apesar do que dizem “empresários” e “parceiros”, ficar por aqui não é o maior atraso de vida do mundo. Muita coisa mudou em relação aos últimos anos, quando os jogadores deixavam o Brasil com a pressa de quem abandona uma nau a pique. Agora dá para ficar um pouco mais. Ganham eles, porque pobres não ficam, e ganhamos nós, que desejamos um futebol cada vez melhor aqui dentro.
A se confirmar a tendência, talvez tenhamos pela frente campeonatos que não se distingam somente pela emoção, como o Brasileiro deste ano, mas pela excelência técnica dos times em campo. Não custa esperar. O mais difícil parece que já está acontecendo, a reversão do complexo de vira-latas pela melhoria dos índices brasileiros. O que a retórica de Nelson Rodrigues não deu conta de resolver, o aumento do PIB está fazendo.

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