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A malandragem dos honestos

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h14

4/12/2007

Começando pelo óbvio: este campeonato premiou o profissionalismo e puniu o
amadorismo. Essa é a principal característica do sistema por pontos corridos
e sem viradas de mesa: quem se prepara e se estrutura vai bem; quem confia
no acaso e no sobrenatural, no jeitinho e na improvisação, dança.
O Campeonato Brasileiro, na fórmula atual, é regido pelo princípio da razão.
Um princípio acumulativo, em que os pontinhos vão se depositando como
dinheiro na poupança, ao longo de toda uma temporada. É o campeonato das
formigas, não das cigarras. Estas, que vivem de espasmos de criatividade,
não têm vez diante do trabalho árduo e metódico de quem constrói
formigueiros.
Não por acaso, esta é a fórmula adotada em toda a Europa. Berço do
capitalismo, o europeu joga bola com a cabeça e a máquina de calcular. É
mestre na organização e na obtenção do lucro em cima do capital investido. A
invenção, o imprevisível, surgem com maior freqüência na em geral bagunçada
América do Sul. Vide Messi, Robinho, etc. Quando o europeu sente falta desse
traço de originalidade, enfia a mão na carteira recheada e compra. Adquirido
o talento, ele é colocado a serviço do capital. Simples assim.
No Brasil, o Campeonato Brasileiro premiou, pela segunda vez seguida, o
único clube organizado com base na racionalidade empresarial, o São Paulo.
Talvez essa eficácia possa ser alcançada por outros meios. Em todo caso, é
bom que os outros clubes o imitem, ou descubram caminhos alternativos, senão
estará aberta uma longa era de hegemonia do tricolor paulista. A diferença
entre ele e os outros é enorme. Mesmo desmotivado e perdendo o último jogo,
o São Paulo terminou 15 pontos à frente do segundo colocado, o Santos. Um
abismo.
O caso oposto é o do Corinthians, cuja situação não pode ser explicada pela
mera bagunça administrativa que atinge a maioria dos clubes. A gestão Dualib
tentou outra coisa, uma pirueta mortal: queimar etapas e saltar do
amadorismo mais tosco ao vale-tudo do capital globalizado. Em delírio de
grandeza, acharam que poderiam seduzir a máfia russa e depois passar-lhe uma
rasteira.
O desfecho era previsível desde o começo da parceria, mas confesso que não o
esperava para tão cedo. Conheci pessoalmente Kia Joorabchian quando ele
andava no auge do prestígio e assinava autógrafos nas mesmas camisas
corintianas usadas para enxugar lágrimas no domingo. É uma figura
interessante, e inquietante. Nunca responde a uma pergunta de maneira
direta. É esquivo, tortuoso, seus olhos brilham e mudam de direção a cada
instante, como se vivesse acuado. Quando saí do encontro, conferi se a
carteira continuava no lugar. Eu não compraria uma caixa de fósforos em sua
mão. O Corinthians foi arrendado a ele. Ou ao seu patrão, Boris Berezowsky,
pois Kia não passava de testa-de-ferro da MSI.
Nesta hora de dor, convém à torcida corintiana lembrar que se tentou,
inclusive com a ajuda de políticos, abrigar aqui Berezowsky, procurado pela
Interpol, a pretexto de que traria muito dinheiro consigo. Pensou-se, como o
imperador Vespasiano, que mesmo dinheiro ruim não tem cheiro. Na verdade,
envolver-se com bandidos é a maneira mais fácil de se meter em encrenca.
Assim, esse desastre corintiano deveria servir de exemplo aos outros clubes.
E, por que não?, ao próprio País, de maneira geral. A grande malandragem
ainda é ser honesto.

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