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A Mangueira e a bola

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h30

20/2/2007

Beth Carvalho foi enxotada de um carro alegórico da Mangueira. Ela, que é
uma das figuras históricas da verde e rosa, havia pedido para sair no carro
pois não tinha condições físicas de atravessar a avenida a pé. Mas o
carnavalesco da escola entendeu que ela iria atrapalhar a estética do carro
alegórico. Além de Beth Carvalho, toda uma ala da comunidade mangueirense
viu-se banida do desfile, sem maiores explicações. É gente do morro, ninguém
iria dar pela falta dela.
A Mangueira não é a única escola a dar um chute de bico em sua história.
Anos atrás, a Velha Guarda da Portela foi barrada para não causar atrasos no
desfile.
As escolas hão de ter suas razões. Velhinhos são lentos e os desfiles
tornaram-se cada vez mais acelerados. Além disso: há muito o carnaval
tornou-se privilégio de endinheirados, turistas e celebridades. O povo, se
quiser, que veja na TV. E desfile, caso ainda sobre espaço nas alas. Porque,
afinal, quem são Beth Carvalho, os veteranos da Portela ou algumas anônimas
passistas para o pessoal dos camarotes das cervejas? Não passam de intrusos
nessa festa de arromba de siliconadas, elencos globais e celebridades,
instantâneas ou não. Mudou o perfil do carnaval.
Como está mudando o perfil da outra arte genuinamente brasileira, o futebol.
“Genuinamente” brasileira, eu disse? E já me corrijo, pois nem carnaval nem
futebol foram inventados por estas plagas. A origem de ambos se perde na
poeira dos tempos e das geografias. Mas aqui foram reinventados. Ganharam
nova vida, estilo e força, numa espécie de criativa reinterpretação
tropical. Antropofágica, diria Oswald de Andrade. O futebol tornou-se
pentacampeão do mundo. O carnaval é vendido, nas agências de turismo, como o
mais sensacional do planeta. Alguma qualidade deve ter.
Mas quando futebol e carnaval se tornaram, no Brasil, as forças que são, ou
eram? Quando saíram das mãos (e pés) da elite e foram apropriados pelo povo
simples, pelos negros, pela arraia-miúda da sociedade. No tempo em que o
futebol era diversão privativa de branquinhos grã-finos não produziu nada de
memorável. Foi preciso que trabalhadores e descamisados dele se apropriassem
para que pudesse emergir o gênio brasileiro nos pés do mestiço Friedenreich,
dos negros Domingos e Leônidas, nas gerações pioneiras que abrasileiraram o
rígido jogo inglês.
Quanto ao carnaval, foi o binômio samba-morro que lhe deu a feição artística
que hoje se conhece e se encontra em involução. Tivesse ficado nos bem
comportados corsos e bailes de salão da belle époque, como surgiria gente
como Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Cartola, para ficar apenas em três
nomes da Estação Primeira de Mangueira?
É nessa reinvenção popular que futebol e carnaval no Brasil forjaram sua
energia. Força que é, também, sua fraqueza na era do show biz em escala
mundial.
O futebol, globalizado, vive da exportação dos seus talentos maiores. No
plano interno, não falta quem proponha a elitização dos estádios como forma
de financiar o espetáculo: “o futebol é para quem tem dinheiro para consumir
no estádio”, dizem, com todas as letras. No carnaval, é o que se vê: a
arquibancada pertence a quem pode pagar ou é suficientemente famoso para
entrar na boca livre dos camarotes. Na passarela, o pessoal do morro
comparece para dar uma cor local, mas apenas se não atrapalhar a presença de
celebridades tão familiarizadas com o samba no pé como com a física
quântica.
Carnaval e futebol, renascidos no Brasil como formas de afirmação da arte
popular, vivem agora sua fase inversa. O povo está sendo desapropriado
daquilo que criou e “convidado” a ver de longe a festa que outrora lhe
pertencia. Pensando bem, o que mais se poderia esperar de um país campeão da
exclusão social?

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