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A máquina de fabricar ilusões

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h28

6/2/2007

Previsível, mas foi preciso acontecer o primeiro clássico para que
tivéssemos futebol de nível no Campeonato Paulista. Previsível porque, mesmo
com as grandes equipes depauperadas, é nelas que se encontram os poucos bons
jogadores em atividade no País. Previsível também porque esse resto de
qualidade desperta com a rivalidade ancestral de times que começaram a jogar
no início dos tempos. Palmeiras e Santos, os dois grandes times paulistas
dos anos 60, e que se enfrentam desde 1915, fizeram um clássico digno de
futebol pentacampeão do mundo.
Foi, com sobras, o melhor jogo da temporada até agora. Seis gols numa
partida cheia de nuances, alternativas táticas, boas jogadas individuais.
Alguns personagens também se destacaram, positiva ou negativamente. Edmundo,
tantas vezes dado como carta fora do baralho, inclusive (e talvez
principalmente) por palmeirenses, jogou um magnífico primeiro tempo. Do
outro lado, o também veterano Antonio Carlos não foi bem. Ambos haviam
atuado juntos, no Palmeiras da Parmalat. Durante o jogo, Edmundo,
malandramente, conseguiu cavar, em cima de Antonio Carlos, o pênalti que
quase dá a vitória para o seu time. Dois grandes atores do jogo.
Enfim, o futebol em seu conjunto saiu ganhando com esse encontro no Parque
Antártica. Nele, houve lances bonitos, jogadas polêmicas, alternância de
domínio das equipes. Enfim, tudo isso de que é feito um desses jogos que não
se esgotam em seus 90 minutos e são discutidos e rediscutidos pelos
botequins da vida. Quando perguntavam a José Lins do Rego o que ele,
escritor importante, ia fazer no estádio, respondia: “Divertir-me, digo a
uns. Viver, digo a outros. E sofrer…” O futebol é um dispositivo inventado
para provocar emoções.
A TRISTEZA DO FUTEBOL
E esse dispositivo não funciona sem a paixão dos torcedores. Sem ela, não
haveria o sentimento agônico que faz o coração parecer sair pela boca nos
momentos mais tensos de uma partida. Nem esse sofrimento atroz transformado
em euforia no gol e na vitória. Nem a depressão da derrota. Imagine uma
torcida burocrática, que vai a um estádio somente para ver uma partida bem
jogada cujo resultado lhe é indiferente. Um tédio, não?
Mas, provavelmente, sem a paixão tribal dos torcedores também não existiriam
as cenas deprimentes vistas nas imediações do Parque Antártica, em Nova Lima
e na Itália, onde a briga entre torcidas do Palermo e do Catania causou a
morte de um policial de 38 anos.
Ninguém sabe direito como enfrentar a violência ligada ao futebol.
Tolerância zero? Estádios com apenas uma das torcidas? Câmeras de
vigilância? Leis draconianas? Fim das torcidas organizadas?
Bem, essas brigas sempre existiram. Há registros de um formidável
quebra-quebra nos anos 20 num jogo entre paulistas e cariocas. Até mocinhas
participaram da depredação do antigo Parque Antártica. Hoje é pior. Um
detalhe chama a atenção nas cenas do conflito de domingo antes do clássico:
um dos brigões tira sua maquininha fotográfica digital do bolso e registra o
quebra-pau. Era a lembrança que ele queria levar daquele jogo e
provavelmente iria repassá-la para os amigos pela internet. Vivemos na época
da imagem e os egos desses idiotas se alimentam (também) da visibilidade que
ganham com atos anti-sociais.

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