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A maré vermelha e a praia

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 13h58

Durante a semana passada estive a trabalho no Rio Grande do Sul e pude
acompanhar de perto a conquista da Libertadores pelo Internacional. Os
gaúchos, quer dizer, metade deles, estão nas nuvens até hoje. Para se ver:
sábado de madrugada eu estava comendo um fondue num restaurante em Gramado,
quando soa o hino do Inter, parte dos freqüentadores se levanta e canta,
enquanto o garçom justifica: “Pois é, doutor, estamos festeando até agora.”
Têm motivos de sobra para “festear”, quem vai negar? Ganharam um título que
entra para a História, conquistado em dois grandes jogos, equilibrados,
decididos na técnica e na raça. Um futebol que deveria ser a regra e não a
exceção em país como o Brasil.
Bom, e o que deveria estar fazendo o Inter, já que ganhou o direito de
disputar o Mundial de Clubes no Japão? Segundo manda o bom senso, mesmo na
euforia da vitória deveria estar se reforçando para pegar o campeão europeu,
o Barcelona, seu provável adversário na final. Mas não. Nem bem acabou a
Libertadores e o Inter já promove o saldão: vendeu o zagueiro Bolívar, o
lateral Jorge Wagner, o volante Tinga e acaba de negociar a jóia da coroa, o
atacante Rafael Sobis. Desmontou a defesa, enfraqueceu o meio-campo e abriu
mão do jogador mais criativo do time. Só isso.
Para comparar: o Barcelona, ao invés de vender, saiu às compras. Contratou o
italiano Zambrotta e o francês Thuram, ambos para a defesa, além do atacante
islandês Gudjohnsen, que atuava no Chelsea.
Qual dos dois está se preparando melhor para a provável final do Mundial
Interclubes? Quem já era bom e se reforçou ou quem ainda pensa que por aqui
“brotam talentos” e então encontrará facilmente substitutos à altura dos que
partiram? Quem vai melhor? Aquele que mantém sua base e a fortalece, ou
aquele que destrói o que construiu com tanta dificuldade? Você responde,
amigo leitor.
Certo, o presidente Fernando Carvalho já havia dito que precisava vender
jogadores para equilibrar as contas. Mas que futebol é esse, em que mesmo os
clubes mais bem administrados precisam se desmanchar para fechar o balanço?
Para sair do vermelho, o Inter da maré vermelha pode acabar morrendo na
praia.
Sempre que assisto a esse tipo de situação (a mesma todos os anos) fico
pensando na falta que faz uma instituição realmente interessada no futebol
brasileiro e que, sem demagogia, discutisse e tentasse reverter esse modelo
exportador irresponsável. Claro, a CBF, que nada tem a ver com o futebol
praticado no País, continuaria dedicada à sua seleção, cuja lucratividade
não deve ter despencado junto com o futebol apresentado na Copa. Afinal, o
que a move é o aparato publicitário e, como se diz, nasce um trouxa a cada
minuto. Em estimativa conservadora.
Aliás, a nova seleção de Dunga tem servido bastante bem à causa da
exportação precoce de atletas. Convocou uma vez, o cara já está vendido.
Aconteceu com Sobis agora, mas já havia sucedido com Jônatas, ex-Flamengo,
que nem foi convocado pela segunda vez. Bastou figurar na primeira lista do
Dunga para ser negociado com o exterior. E assim o mundo gira e a Lusitana
roda. Ou vice-versa.
Desmanches à parte, Inter e São Paulo continuam os melhores times e um deles
deve ficar com o título do Brasileiro, se é que existe alguma lógica no
futebol. Não vejo adversários capazes de ameaçá-los.
Inter deveria estar se preparando para a final com o Barcelona no Japão.

22/8/2006

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