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A morte em Oruro

Luiz Zanin Oricchio

22 de fevereiro de 2013 | 18h22

Há um certo silêncio obsequioso em torno da morte do garoto em Oruro, em especial por parte dos corintianos decentes, que são a imensa maioria da torcida.

Compreendo. O assunto é delicado e tem muitas implicações. Do tipo: o clube é responsável por aquilo que faz a sua torcida?

Temos passado ao largo dessa questão porque tratamos até agora de problemas veniais – moedas em campo e coisas assim.

Agora há uma morte em pauta. O que fazer? Quem é culpado?

Objetivamente: todo mundo tem sua parcela de responsabilidade pelo acontecido. Até mesmo os bolivianos: o mandante, o policiamento do estádio, etc.

Mas, mais objetivamente ainda: alguém entrou com o tal foguete ou sinalizador em campo e entrou disposto a usá-lo. Não para lançá-lo para cima, para comemorar, mas para atingir a torcida adversária, como ficou claro.

Houve dolo? Provavelmente, mesmo que a pessoa diga (o que talvez seja verdade) que ignorava o poder destruidor do artefato. Sempre era uma bomba, que foi disparada de propósito contra a torcida adversária. As firulas jurídicas, eu deixo para os juristas.

Importante é saber quais as relações tecidas entre o clube e suas torcidas organizadas.

Em geral são toleradas e, mais que toleradas, bajuladas pelas diretorias e utilizadas como massa de manobra para ações políticas. Apoiam determinadas facções do clube em troca de privilégios. Isso todo mundo sabe. Não sei se se prova, mas não deve ser tão difícil.

Porque, caso se prove, está feito o vínculo entre o clube e a torcida organizada, sendo portanto estabelecida a responsabilidade.

O fato é suficientemente grave para que, a partir dele, se passe a limpo toda essa relação espúria. Quando um clube, ou uma diretoria arruma aliados dessa natureza, acaba se comprometendo com eles. Não há como não sujar as mãos. Não dá para separar um âmbito do outro. Essa zona cinzenta de conivência e cumplicidade tem de ser iluminada.

Urge não apenas para o Corinthians, mas para todos os times ditos grandes repensar esse tipo de coisa.

É complicado, eu sei. Esses mesmos torcedores que se envolvem em delitos como este são aqueles que acompanham o time em qualquer lugar e circunstância.

Não há por que duvidar do seu amor ao clube. Mas trata-se de um amor bandido. Feito de fanatismo e violência.

Agora chegou-se ao limite.

Porque a morte não tem volta e não é remediável. Uma vida jovem se extinguiu. Quem consola a família?

Acabou-se. Não há reparação possível.

O que mais se aproxima de uma reparação seria a extinção do tipo de torcedor que acabou com a vida de Kevin Douglas Beltran Espada, 14 anos, torcedor do San Jose, de Oruro. Imagino que a própria parte sadia da torcida tenha seu papel de isolar esse tipo de torcedor.

Há que ir fundo desta vez.

Para que a repetição de um fato trágico como esse se torne, se não impossível, porque o engenho criminal humano é infinito, pelo menos improvável.

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