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Luiz Zanin Oricchio

11 de setembro de 2012 | 08h30

Nesta época de jogos inúteis da seleção brasileira, me pego pensando em Nelson Rodrigues. Ainda mais porque neste 2012 se comemora o seu centenário. Como gostamos demais de datas redondas, tem-se falado muito em Nelson. No teatro, claro, domínio em que foi o gênio a nos legar peças como Vestido de Noiva, sua provável obra-prima. Mas também se lembra do Nelson da crônica, dos folhetins maliciosos, o fino observador do subúrbio carioca. Não poderia ficar de fora o Nelson cronista esportivo, atividade que ele exerceu por muitos anos e marcou com seu estilo inconfundível. E inimitável.

O engraçado é que muita gente vem lembrando algo associado a Nelson.

Não se sabe se mito ou verdade, dizem que ele era muito míope e, por vaidade, não usava óculos. Pensando bem, conheço fotos de Nelson no Maracanã, sem óculos. Torcedor fanático do Fluminense, e cronista consciencioso, ia ao Maraca como o devoto vai à igreja. Contrito e pontual. Domingo à tarde era dia de jogo. Sagrado.

Pois bem, gente que o conheceu de perto diz isso, que Nelson, míope, ia ao estádio, mas não via o jogo. Respirava o clima, intuía o que se passava em campo, sofria, exultava, sentia a reação da torcida, mas, a rigor, não enxergava grande coisa do que acontecia no gramado. Viria daí a sua suprema indiferença em relação a questões táticas. E daí esse imenso paradoxo: o patrono de todos nós, cronistas esportivos, era alguém que não via os jogos. Ou os entrevia em meio a uma neblina indefinida, que é como os míopes veem o mundo quando desprovidos dos seus aparelhos de enxergar.

Acho essa história engraçada, mas confesso que não consigo levá-la muito a sério. Isso porque tenho a convicção de que, míope ou não, ninguém viu o futebol com tanta clareza, com tanta perspicácia como Nelson Rodrigues. Tinha olhos de águia para perceber que um jogo é sempre mais do que um jogo – “A mais reles pelada é de uma complexidade shakespeareana”. E também enxergava, com fatal nitidez, que a seleção não era um time como os outros. Essa era, para usar, com devida licença, outra de suas expressões, uma verdade mansa, definitiva.

E por quê? Porque depositamos sobre o futebol, em nossos times de coração e, em especial, na seleção, uma gama complexa de sentimentos, muitas vezes contraditórios, que vão do orgulho tribal às nossas mais fundas e inconfessáveis frustrações. A seleção nos representa; ela não é propriamente um retrato de como somos, mas de como gostaríamos de ser. A seleção de 1970, por exemplo, não era retrato fiel do País – era muito melhor do que ele. Outras vezes essa relação se inverte.

Essa seleção da CBF, que está aí, tem sido um retrato muito inferior ao original. O Brasil é muito melhor do que ela. Está aquém da imagem que julgamos merecer. Se vivo fosse, Nelson perceberia essa mudança radical de relacionamento entre o torcedor e o “escrete”? É claro que sim. Podia ser míope, mas enxergava longe.

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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