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A nossa pequena pátria

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 14h12

Pois é, amigos, se vocês, como eu, já estava faminto, podemos começar a matar a fome de bola. Começaram os campeonatos regionais, de quem tantos falam mal, mas, para o meu gosto, ainda mantêm pelo menos parte do antigo encanto. E ponha antiguidade nisso. Afinal, o Campeonato Paulista, que é o mais próximo de nós, começou em 1902! Existia antes da fundação da Fifa. Quando a bola começou a rolar de forma oficial na Paulicéia, Santos Dumont ainda nem tinha feito o seu vôo inaugural com o 14 Bis, a 1ª Guerra Mundial não havia começado e o primeiro samba ainda não tinha sido gravado por Donga.
Cultura inútil à parte, lembremos que o Campeonato Paulista faz parte das nossas tradições, como fez parte da memória dos nossos pais, avôs e bisavôs. É uma instituição de respeito. E, mesmo os monumentos combalidos, devem ser conservados. Além disso, os campeonatos regionais abrem o ano futebolístico para valer e representam um alívio considerável ao nosso jejum de boleiros. Não adianta dizer que os torneios europeus continuaram durante o período de férias e nem que a Copinha já vai entrando em sua fase decisiva. Os europeus não saciam a nossa sede e a Copinha… francamente: como pode um campeonato que começa com 92 times despertar algum interesse em sua fase inicial? Além disso, a Copinha é mais uma esperança do que a realidade: mostra, na melhor das hipóteses, garotos que, um dia, poderão ser confirmados como jogadores para valer.
Já quando começam os campeonatos regionais é o nosso time que, de fato, entra em campo. Aquele que amamos, que nos alegra, pelo qual sofremos e nos angustiamos. Ele é insubstituível, mesmo que no jejum forçado nos consolemos com aqueles seres distantes que a TV nos apresenta nos impecáveis gramados europeus. Damos uma olhada rápida na Copinha. Se estamos em férias na praia, paramos diante de um jogo qualquer, disputado por uma dúzia de desocupados, e nos lembramos da frase de Nelson Rodrigues sobre a complexidade shakespeariana da mais reles das peladas. Tudo contribui para matar um pouco a nossa sede e aplacar a nossa fome. Mas, quando entra em campo o nosso time de verdade, aquele um, único e insubstituível, que escolhemos na infância, aí então tudo muda. Você já notou? Quando nosso time joga, a partida mais objetivamente monótona ganha colorido diferente. Tudo é mais forte, mais intenso, tudo nos diz respeito mais de perto. É por isso que o grande Décio de Almeida Prado, são-paulino e um dos maiores críticos do teatro do País, cunhou uma linda frase. Ele dizia que o nosso time do coração é como se fosse a nossa pequena pátria. Por cosmopolitas e globalizados que sejamos, é com ele que nos sentimos em casa e entre nossos iguais.
Salve, portanto, os campeonatos regionais, que nos devolvem o convívio com nossas pequenas pátrias e nos trazem de volta a verdadeira emoção do futebol. Emoção que, claro, pode ser positiva ou negativa. Assim, duvido que são-paulinos possam guardar boa lembrança dessa primeira rodada, que serviu para mostrar como o time vai sofrer para se adaptar ao novo esquema de jogo. Também não foi legal para os corintianos, que deram início o ano do centenário com um empate pífio. Melhor para palmeirenses e santistas, que começaram com vitórias folgadas. E melhor ainda para a Portuguesa, que já venceu um clássico e pode sonhar com um ano melhor do que tem sido os anteriores. Aliás, nesse ponto a Lusa não está só. A primeira rodada é apenas isso: um início de sonho para alguns, prenúncio de pesadelo para outros. Mas são apenas os primeiros movimentos.

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