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A opção por um futebol melhor

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 22h36

O campeonato brasileiro embolou de vez. A oito rodadas do final, promete
desfechos pouco recomendáveis para cardíacos. Nada menos que cinco times –
Atlético-PR, Santos, São Paulo, São Caetano e Palmeiras – continuam na luta
pelo título. E Juventude, Corinthians e Goiás podem muito bem sonhar com
tropeços dos adversários e pelo menos beliscar uma vaga na Libertadores.
Assim, essas últimas rodadas serão fulminantes. Tanto para a turma que
disputa o título e vagas nas competições internacionais quanto para aqueles
que lutam para deixar a casinha dos rebaixados, essa residência incômoda e
com porta de saída estreita. Guarani e Grêmio já estão mobiliando sala e
cozinha, e Paraná e Botafogo parecem ter gostado do que viram. Mas Flamengo,
Atlético Mineiro, Vitória e Criciúma não param de rondar a vizinhança,
decidindo se batem ou não na porta e fazem uma proposta ao proprietário.
Oito clubes esperando alguma coisa e oito temendo outra. Dezesseis torcidas
oscilando entre o temor e a esperança. Está de bom tamanho, até para quem
achava que um campeonato por pontos corridos traria pouca emoção.
Mesmo assim existe quem pretenda reabrir a discussão: pontos corridos ou
mata-mata? “Apesar de tudo faltam os jogos finais, emocionantes, atraentes
para o público”, dizem os adeptos do mata-mata. “Todos os jogos passam a ser
importantes porque valem os mesmos três pontos e, num campeonato
equilibrado, há várias finais, como está acontecendo agora”, argumentam os
defensores dos pontos corridos. Ambos estão certos, porque as duas opções
apresentam vantagens e desvantagens, como quase tudo na vida. Resta saber
qual delas, somadas suas virtudes e debitados seus defeitos, contribui mais
para a estrutura do futebol brasileiro.
No sistema de pontos corridos, é raro que exista aquele jogo decisivo, que
leva a galera ao delírio ou ao enfarte. Pode existir. Aconteceu, por
exemplo, no Paulista de 1984, quando Santos e Corinthians disputaram os
pontos, palmo a palmo, e se enfrentaram no último jogo do campeonato com o
Santos precisando do empate e ganhando a taça com gol de Serginho Chulapa.
Mas não é comum. Ano passado o Cruzeiro disparou e tornou-se campeão com
antecedência. O Santos, que o perseguia, foi vendo suas chances minguarem
aos poucos, em agonia lenta. Para quem perde um campeonato nessas condições,
a dor é mais suportável; para quem vence, o prazer é mais prolongado.
O sistema de mata-mata inclina-se ao paroxismo, é selvagem. Num único jogo
proporciona o sentido épico da conquista ou o dilaceramento sem consolo das
grandes tragédias. O de pontos corridos garante a justiça a longo prazo, a
vitória da razão sobre o capricho do acaso. O azar em um jogo é corrigido
pela sorte em outro e tudo se equilibra no final, segundo a lei dos grandes
números. Vence o melhor.
Escolher entre um e outro fica a gosto, temperamento (e casuísmo) do
freguês. Mas acho que há um argumento forte em favor dos pontos corridos.
Como o resultado final nesse sistema é função da racionalidade e do
planejamento, nele não se pode improvisar. Os clubes teriam de montar
equipes estáveis, fortes, com bom elenco e técnicos menos sujeitos a perder
o emprego à primeira derrota. Não poderiam se dar ao luxo de vender
jogadores durante a competição e, se fossem obrigados a se desfazer de um ou outro, teriam de repô-los sem demora e com substitutos à altura.
A longo prazo, acho e espero, o campeonato por pontos corridos acabará por
imprimir seu espírito sobre os cartolas, exercendo talvez um efeito
civilizatório sobre o futebol brasileiro. A torcida, penhorada, agradece.

28/10/2004

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