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A paciência anda cada vez mais curta

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h30

Ronaldo Fenômeno foi hostilizado depois da desclassificação do Corinthians na pré-Libertadores. O time do Santos, sensação do início de temporada, foi vaiado após o empate por 1 a 1 com o Santo André. Vaias que também foram reservadas a Rivaldo na derrota do São Paulo para o Botafogo de Ribeirão Preto . A paciência das pessoas é cada vez menor. Talvez seja uma senha para entender a violência das torcidas, que é um caso particular da violência geral da sociedade . Na sociedade do hiper consumo, ninguém mais tolera frustração. O prazer não pode ser adiado. O desprazer, qualquer que seja ele, não pode ser assimilado. Na cabeça das pessoas não existe intervalo entre o desejo e a satisfação – e quando existe, a frustração toma conta do indivíduo e ele sai em busca de algum bode expiatório. Pode ser sob a forma simbólica da vaia. Mas essa insatisfação pode muito bem tomar o caminho da violência, verbal e física.
Só assim se pode entender como um ídolo se torna, do dia para a noite, um inimigo do clube e da torcida. Como um time, até então badalado e querido, se transforma em alvo de reprovação por conta de um único resultado. Como um veterano, que havia estreado em alto nível, pode ser tratado sem qualquer paciência apenas porque, no segundo jogo em que atua, não consegue repetir a performance do primeiro. Que esses sinais sirvam de alerta para Ronaldinho Gaúcho ,até agora em lua de mel com a torcida do Flamengo. Se o seu desempenho seguir tão irregular quanto foi em seus últimos anos de Europa, a festa terminará muito cedo.
Jogadores, dirigentes, jornalistas – enfim, todo mundo que vive do futebol – deveria saber que mexemos com a paixão e por isso não podemos cobrar muita racionalidade, em especial da torcida. Nessa atividade, hoje tão pragmática e argentária, a torcida é o único polo que vive uma relação idealizada com seu clube. Jogadores, agentes, investidores, “parceiros” e tutti quanti são partes da economia do futebol, do negócio, do business, do marketing. Olham seu lucro. E ponto. Dirigentes, não raro, usam o clube como trampolim de prestígio e poder, para não falar de outras coisas. Jornalistas veem o ambiente do futebol de um ponto de vista profissional. Nesse universo todo, apenas a torcida é amadora. Somente ela mantém uma relação ainda romântica com o clube e com o esporte.
Esse é um aspecto fundamental, e benigno, porque, se não fosse esse romantismo das arquibancadas, o resto da economia do futebol não funcionaria. Sem paixão, quem iria a estádios, sob sol e chuva? Quem pagaria a TV por assinatura? Quem compraria camisas? Quem se deixaria seduzir pelos produtos que o ídolo anuncia? Quem compraria jornais ou revistas especializadas? Sim, meus irmãos, a paixão, o romantismo, a alienação, e mesmo a infantilidade das torcidas é que faz o negócio girar. Sem ela estariam todos desempregados.
Sempre foi assim? De certo modo, sim. Há registros da paixão pelo clube desde que a bola começou a rolar no futebol moderno – aquele codificado pelos ingleses. Depois da profissionalização, muitos atletas foram considerados mercenários. Muito ídolo foi vaiado ou hostilizado. Hoje, sob a pressão da sociedade, tudo acontece mais rápido. E de maneira mais intensa. É uma patologia da vida contemporânea, que atinge o futebol. O jogo da bola não está isolado do resto da vida.
QUANDO APRENDEREMOS?
Ney Franco disse que o mais importante seria “preparar o psicológico” para o jogo da seleção sub-20 contra a Argentina. Pelo jeito, perdeu o seu latim. Os garotos entraram super nervosos em campo. Só assim se entende a besteira de Juan, expulso logo no início do jogo ao cometer pênalti infantil. Não deve levar a culpa sozinho. Todo mundo estava meio alterado, incluindo Neymar que tomou cartão bobo e fica de fora da partida contra o Equador. Quando aprenderemos a não cair na suposta catimba dos argentinos? Talvez nunca. Parece uma tradição, que passa de uma geração a outra.

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