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A parte que cabe aos jogadores

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h47

24/6/2008

Havia suspeita de que o time do Palmeiras faria corpo mole devido ao atraso
de salários. Engano. O Palestra foi a São Januário e enfiou dois gols no
Vasco. De outro lado, havia esperança de que o Santos mostraria alguma coisa
depois de uma intertemporada de treinos começando às 7h da manhã. Outro
engano. O Santos foi massacrado em casa pela frágil equipe do Goiás. Se
houve corpo mole foi na Vila e não em São Januário.
Mérito de Vanderlei Luxemburgo, que soube manter o leme firme, mesmo nessa
situação que sempre gera tensão em um elenco? Sim, provavelmente, mas apenas
em parte. Culpa de Cuca, que não conseguiu dar padrão mínimo de jogo até
agora, e nem mesmo concedeu à torcida o conforto de um time lutador? Sim,
mas em parte.
Falando nisso tudo, mais uma vez toco nesse assunto – a excessiva
importância que damos aos técnicos, na vitória como na derrota. Por isso
eles se transformaram em semideuses cujas palavras são ouvidas como a
revelação das tábuas das leis. E também por isso são transformados com tanta
facilidade em bodes expiatórios.
Tudo isso também está acontecendo na seleção. Claro, Dunga nem de longe
mostra capacidade ou currículo para dirigir a seleção brasileira. Seus
defeitos são tão óbvios que provoca tédio lembrá-los. Mas, enfim, será que
suas limitações tão evidentes explicam toda a mediocridade dessa seleção? Ou
devemos buscar as razões do futebol pífio exatamente naqueles que o praticam
em campo? Por exemplo, será que ainda colam desculpas como as que dizem que
eles vêm da desgastante temporada européia? E a turma que anda correndo
feito louca na Eurocopa, onde joga?
Então vamos parar com essa conversa fiada, que cai tão bem junto às torcidas
ditas organizadas. Não adianta trocar técnico se o elenco não tiver
qualidade e fibra. Sem esses dois quesitos não se faz um time. São condições
básicas. Não estou aqui subestimando o papel de um técnico, que deve agir
como planejador tático, organizador e, eventualmente, motivador do grupo.
Desde que o grupo se preste a ser motivado, naturalmente.
Não foi Luxemburgo quem encarou sozinho o Vasco em casa. Foram os jogadores
do Palmeiras que, mesmo submetidos a essa circunstância inaceitável no
futebol profissional, mostraram que estão procurando alguma coisa maior para
o clube. E, no fim das contas, para eles mesmos.
Já na seleção, o que se nota é o profundo desinteresse em vestir aquela
camisa amarela que, em outros tempos, foi o sonho maior de todo garoto que
um dia chutou uma bola na rua. Não mais. Parece que a seleção passou a ser
objetivo secundário, um tanto tedioso, uma obrigação a ser cumprida que os
faz se deslocarem de seus paraísos europeus para esses chatíssimos e
perigosos países do Terceiro Mundo onde tiveram a má sorte de nascer.
Em outra escala, é também o que se viu na Vila. Não sei se Molina, Tabata,
Marcinho Guerreiro, Wesley, um dia deixaram o videogame de lado e pararam
para refletir que estão vestindo camisas que já foram de um Pelé, de um
Coutinho, de um Zito, de um Dorval, de um Pepe. Será que já ouviram falar
nesses nomes? Será que sabem que, além de terem sido magníficos jogadores,
eles também ralavam muito em campo?
Precisamos parar de transformar treinadores em heróis ou vilões. Vamos
devolver aos jogadores a parte de responsabilidade que lhes pertence.

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