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A pisada de bola do Rei

Luiz Zanin Oricchio

11 Setembro 2014 | 10h33

Em geral acho que existe má vontade com as declarações de Pelé. Pedem a ele opinião sobre tudo. Ele as dá. E nem sempre o que diz bate com a expectativa do interlocutor. Tudo o que vem de Pelé tem peso específico diferente. É palavra de rei. Acontece que o Brasil não respeita seus ídolos (muitas vezes os ídolos também não respeitam o Brasil, mas esta é outra história).

Ou seja, quando fala, Pelé é um homem comum, sem qualquer sofisticação. Mas o que fala, porque é ele quem diz, repercute como se fosse palavra divina. Como o brasileiro é um ser com sérios problemas de identidade (Maradona, aqui, não seria ninguém), critica Pelé às vezes de forma desproporcional.

Após esse introito, devo dizer que também não concordo com o que disse Pelé sobre o caso Aranha. Aliás, discordo profundamente. Como até os marcianos sabem, o goleiro do Santos foi brindado com gritos racistas pela torcida do Grêmio durante uma partida em Porto Alegre. Como consequência, o clube foi punido com exclusão da Copa do Brasil e torcedores gremistas estão às voltas com a Justiça.

Pelé acha que houve exagero. Que ele próprio foi xingado com palavras racistas durante sua carreira e nem por isso deixou de jogar o jogo. Certo, mas era outra época.

Jogar o jogo: eis a questão. Naquele tempo, provavelmente, Pelé transformava o insulto sofrido em raiva e isso o fazia, talvez, jogar ainda mais, com maior intensidade e gênio, se é que isso era possível. O insulto do meu inimigo é um estímulo. Coisa assim. Nas imagens que se veem da mitológica partida em Buenos Aires, contra o Boca Juniors pela Libertadores de 1963, dá para intuir, senão ouvir, os insultos dos torcedores contra aquele ataque de sonhos, formado quase exclusivamente por negros (a exceção era o branquelo Pepe, o ponta-esquerda, filho de espanhóis). O resto era de “crioulos”, como eles mesmos se chamavam: Dorval, Mengálvio, Pelé e Coutinho. Ganharam o jogo, dentro da Bombonera.

O tempo passou, a vida piorou em muitos aspectos e melhorou em outros. Hoje, racismo é crime. Insulto racista é crime. Se o sujeito for racista, tem de engolir sua convicção e resmungar pelos cantos. Não pode exprimi-la para humilhar o seu semelhante, só porque este tem tonalidade de pele diferente. Acho isso um progresso. Um dos raros que a humanidade fez nos últimos, digamos, 50 anos, à parte o avanço tecnológico. O resto foi quase todo regressivo. Mas hoje se convive melhor com a diversidade étnica e também com a sexual. Isso é bom para todos e não somente para os diretamente envolvidos. Torna a todos nós mais humanos.

No entanto, o racismo, sabemos, subsiste, e se exprime em certas ocasiões e locais. Campos de futebol são um exemplo. Acontece na Europa e começou a acontecer aqui. Mesmo que seja um contrassenso, pois vivemos numa sociedade multirracial e temos orgulho disso. No caso do Grêmio, é mais absurdo ainda. O hino do clube foi composto por um negro genial, Lupicínio Rodrigues, gremista fanático, cujo centenário de nascimento se comemora este ano. Além do mais, o Grêmio tem em seu elenco vários jogadores negros, entre os quais o grande Zé Roberto, que, aos 40 anos, joga como um menino. A garota que xingou Aranha de macaco, junto com outros gremistas, literalmente não sabia o que estava fazendo. O caso serve para que aprendam. Tem valor pedagógico.

Ou seja, a história ganhou repercussão e acho que vai contribuir para que coisas assim não aconteçam mais. Ou, pelo menos, que diminuam em frequência. Não temos o direito de humilhar ninguém. Esse é o ponto.

De modo que, a meu ver, Aranha agiu super certo. E mais ainda, quando disse que perdoava a moça que o havia insultado, mas que ela sofresse as consequências da lei. E nem queria encontrá-la, e nem conhecê-la pessoalmente, nem se tornar amigo, coisa bem a gosto da mídia consolatória que temos. Aranha agiu com serenidade e de modo radical, que é o certo nesse tipo de caso.

Nesse ponto ele está correto, e Pelé, errado.

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