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A Ponta do Iceberg

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h32

Dizem os entendidos que só vemos 10% de um iceberg. Os outros 90% ficam abaixo da linha d’água. É mais ou menos o que sinto ao acompanhar o futebol. Vamos ao campo, acompanhamos o noticiário, lemos o noticiário sério, sem deixar de lado as fofocas, ouvimos as entrevistas de jogadores, técnicos, roupeiros e cartolas, seguimos as mesas-redondas (com evidente prejuízo da paz conjugal) e, afinal, o que conseguimos saber desse jogo? Pouco, muito pouco. Talvez uns 5%, 10% no máximo, como acontece com os icebergs que, numa noite distante, afundaram o Titanic.
Depois de esculpir esse nariz de cera, chego ao meu ponto: não é interessante observar como o mesmo elenco, os mesmos jogadores, com seus méritos e limitações, passa a jogar de maneira diferente com alguma alteração na cúpula, em particular com a mudança de técnico? Foi o que aconteceu com o Palmeiras, que está indo muitíssimo bem sob o comando de Jorginho. A ponto de Edmílson, jogador experiente e inteligente, falar em mudança de estrutura tática para justificar os bons resultados. Será mesmo? Ou foi apenas uma alteração no ambiente que veio a determinar a mudança que vemos em campo? O fato é que o Palmeiras mudou. Como Luxemburgo não desaprendeu de repente e nem Jorginho tornou-se um Rinus Michels da noite para o dia, devemos atribuir a nova fase palmeirense a um desses imponderáveis do futebol.
Mas talvez a palavra “imponderável” não seja a melhor. O termo sugere que é impossível saber as razões de mudanças tão repentinas. Não sou irracionalista. Acho que tudo (ou quase tudo) é explicável, no limite. Acontece que, no futebol, que é tecido com a mesma matéria de que são feitos os sonhos, as causas são múltiplas e os relacionamentos tão complexos que tudo parece se dar ao acaso, sem lógica aparente. Mas, vamos supor que, por algum motivo, o ambiente não fosse bom e tenha melhorado agora pelos lados do Palestra Itália. Será que essa não seria uma explicação mais plausível para a melhoria em campo do que uma repentina mudança de estrutura tática? Pense nisso, leitor.
E pense também no Santos que, com os mesmíssimos jogadores, vinha numa boa balada desde as semifinais do Campeonato Paulista e aos poucos foi se esfacelando até entrar em parafuso. Será que o problema era só o Mancini? É explicação muito simplista. Talvez Mancini fizesse parte de um todo que se foi deteriorando até não mais se sustentar. Um todo formado de continuísmo, disputas internas na cúpula e no elenco, vaidades mal administradas, etc. Com a chegada de Luxemburgo esse conjunto vai se alterar? É até possível, desde que ele consiga ser um elemento de conciliação entre essas partes contraditórias. O resultado se verá em campo. E será determinado não apenas por possíveis alterações táticas no time, mas por uma composição entre quem atua nos bastidores e acaba influenciando o desempenho dos que entram em campo e decidem (ou entregam) o jogo.
Tomei como exemplos apenas Palmeiras e Santos, porque ambos estão ligados pelo mesmo personagem – Vanderlei Luxemburgo, demitido de um e empregado por outro, pela quarta vez. Um dos times está em ascensão; o outro, em declínio. Será interessante observar como reagem nas próximas rodadas. Se o Palmeiras continuar bem e o Santos mal, ouviremos que Luxemburgo deixou de ser solução e virou problema. Em caso contrário, dirão que Jorginho é ótimo, mas inexperiente, e que Luxa quando chega resolve, mas o duro é quando sai e deixa a terra arrasada. Mas eles são apenas parte do problema, ou da solução. O todo nos escapa. Não devemos nos incomodar com isso. Como dizia o escritor russo Anton Checkov, santo de minha devoção, só os tolos e os charlatães sabem e compreendem tudo.

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