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A posição dos estáveis

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h16

5/12/2006

Fábio Costa completou 200 jogos com a camisa do Santos na despedida de
domingo contra o Santa Cruz. É mais um goleiro que entra na galeria dos
“estáveis”, daqueles atletas de longa duração que se identificam com a
camisa do seu time. Muito mais do que ele, outros goleiros, como Marcos e
Rogério Ceni, ostentam essa hoje rara fidelidade aos clubes. Poderíamos
ainda falar de Sérgio, que depois de muitos anos sai do Palmeiras, ou de
Roger, que agora está no Santos, mas durante longos anos ficou no São Paulo.
Mas costumamos esquecer os reservas.
E será coincidência que toda essa galeria de “estáveis” jogue no gol? Não
sei. Porque a idéia que se tem é que o chamado jogador de linha logo é
cobiçado pelos clubes do exterior e muito cedo deixa o País, e seu time.
Acontece que atualmente até mesmo os goleiros vão fazer carreira lá fora:
Dida, Júlio César, Gomes – e até o Doni, aqui perseguido por onde passou,
vive na Itália embolsando seus euros.
Seja como for, é no gol que ainda reside a maior taxa de estáveis entre os
boleiros patrícios. Talvez isso tenha alguma coisa a ver com a
confiabilidade que a posição exige. Já muito se disse sobre o goleiro, que a
posição é tão ingrata que onde ele joga não nasce grama. Que todos podem
falhar, menos ele. Sobre o goleiro pairou o último resquício de desconfiança
racial do futebol deste país. Quando todos já se haviam convencido de que a
exuberância do futebol brasileiro devia tudo à raça negra, ainda se
conservava o gol como uma espécie de reserva de mercado para os brancos.
Síndrome de Barbosa, o goleiro negro, bode expiatório da derrota do Brasil
para o Uruguai na final de 1950. A partir dele, a meta da seleção passou a
ser privativa dos brancos, com uma ou outra exceção, quando por exemplo
Manga, reserva de Gilmar, jogou uma partida em 1966. Até que chegou Dida e o
gol brasileiro voltou a ser defendido por um homem negro.
Na minha infância, ficava no gol quem não sabia jogar bola. Deve ser assim
até hoje. Como se a posição fosse secundária, até mesmo porque inverte o
fascínio do futebol que é mostrar habilidade com os pés, que em tese só
servem para a locomoção da espécie. Goleiros jogam com as mãos; mesmo essa
outra frase feita cai por terra quando se vê Rogério Ceni atuar.
Por isso ainda causa surpresa que o herói do belo filme de Cao Hambúrguer, O
Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, seja um aspirante a goleiro. Na época
da Copa de 70, o grande ídolo do menino Mauro não era Pelé, Gerson, Tostão
ou Rivellino, mas Félix que, como lembram os que viveram aquela Copa,
provocava arrepios e noites mal dormidas nos torcedores. Mas o simples fato
de desconfiarmos de um determinado goleiro diz muito sobre a importância da
confiabilidade para esse profissional. E aí entra mais uma frase feita (e
nem por isso errada): todo grande time começa por um grande goleiro.
Passamos a associar a essa posição a solidez da maturidade, o equilíbrio
emocional, a frieza nos momentos decisivos. E mesmo a sabedoria: o grande
escritor e filósofo franco-argelino Albert Camus foi goleiro em sua
juventude e costumava dizer que tudo o que aprendeu sobre a espécie humana
lhe fora ensinado pela prática do futebol. No gol.
Gostaria de acreditar que o goleiro é a posição dos filósofos e estes, como
são sábios, podem mostrar certo desapego às coisas materiais e sabem gozar o
prazer dos vínculos duradouros. Mas talvez seja apenas fantasia da minha
parte.

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