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A prata da casa *

Luiz Zanin Oricchio

27 de janeiro de 2015 | 09h43

Ao vencer o Botafogo por 1 a 0, o Corinthians leva a Copa São Paulo pela nona vez e amplia sua hegemonia no futebol júnior. A notícia seria “auspiciosa”, como escrevem os antigos, não fosse um senão. Ou dois senões. A equipe vencedora revelou algum talento excepcional? Parece que a resposta é negativa. Outro ponto: os jogadores campeões terão chance na equipe de cima? Essa resposta só Deus conhece. Mas podemos nos lembrar que o Corinthians não tem lá grande tradição recente no aproveitamento de suas revelações.

Pelo contrário. As grandes conquistas do Corinthians – as maiores de sua história, a da Libertadores e o Mundial da Fifa – foram obtidas com um time maduro, de jogadores experientes, sólido, treinado pelo prudente e consistente Tite, agora de volta ao Parque São Jorge.

Há algumas considerações a fazer sobre a recém-encerrada Copinha. Todo mundo sabe que virou a copa dos empresários. Começa morna, com mais de uma centena de participantes, alguns deles clubes artificiais, sem qualquer base social, montados para servir de criadouros de boleiros jovens, destinados ao mercado. Depois a copa se afunila e a tendência é que permaneçam os clubes tradicionais.

Mas, mesmo estes mudaram de característica em suas categorias de base. Os jogadores parecem maiores, mais altos e troncudos, efeito do treinamento precoce que visa criar atletas para o mercado. Essa disposição esvazia um dos encantos da Copinha, quando apareciam jogadores franzinos e bons de bola, a entortar marcadores. Isso quase não se vê mais. O que se assiste nos campos em que atuam os juvenis é um espelho do que se vê entre profissionais – jogadores mais obedientes à tática, mais encorpados e combativos. Jogadores para o mercado, em suma. Muitos desses jovens, pelo menos os mais promissores entre eles, já se encontram “fatiados” entre empresários e investidores. Todos sonham com a Europa, ou agora com a China ou o “mundo árabe”. Também nesse aspecto reproduzem a situação do futebol adulto e profissional.

Os clubes diferem no aproveitamento das revelações das suas categorias de base, mesmo entre os gigantes europeus. O Real Madrid é mais comprador de estrelas. O Barcelona também compra, mas cuida com carinho da formação de atletas jovens – a sua famosa cantera, de onde saiu uma boa parte daquele Barcelona recente, que encantou o mundo e parecia invencível. Em âmbito local , o Corinthians tem vocação mais compradora, e esse é o paradoxo. Maior vencedor da Copinha, é um clube que pouca chance dá aos seus jovens.

Em oposição ao Corinthians, o Santos, que venceu apenas duas vezes a Copa São Paulo, é o clube de maior tradição recente no aproveitamento de suas revelações. É o clube dos “meninos”, conforme o rótulo colocado pela imprensa. Algumas gerações de “Meninos da Vila” se sucederam em Santos e lembramos das vitoriosas. A primeira delas, a de Juari, João Paulo e Nilton Batata, venceu o Campeonato Paulista de 1978, quando o Paulistão ainda tinha a importância que perderia com os anos. A segunda, de Robinho e Diego, ganhou o Campeonato Brasileiro de 2002 e, já com o time um tanto modificado, o Brasileirão de 2004. A de 2010, de Neymar e Ganso, venceu três Campeonatos Paulistas, a Copa do Brasil e a Libertadores da América, que o Santos não ganhava desde a era Pelé. O destino desses times promissores todos conhecem de cor e salteado – desmanches prematuros, jogadores jovens e talentosos vendidos a preço de banana, na bacia das almas.

Há outra característica. Esses times jovens do Santos foram formados em períodos de crise econômica, quando não havia outra alternativa senão recorrer à base. Quando existe dinheiro em caixa, dirigentes e técnicos preferem contratar jogadores formados e famosos, mesmo tendo a base à sua disposição.

Não temos de fato uma filosofia de aproveitamento da base. Ela é um quebra-galho que às vezes dá certo. Ou fonte de negócios, que raramente fornece jogadores para serem aproveitados pelo clube. O futebol feito em casa não tem grande prestígio entre nós.

* Coluna publicada na versão impressa do Estadão