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A primeira prova de fogo de Muricy Ramalho

Luiz Zanin Oricchio

30 de dezembro de 2011 | 00h03

Os santistas já estão ouvindo as primeiras gozações dos adversários: “começou a era Muricy Ramalho com o empate de 0 a 0 com o Americana”. Podem dar adeus àquelas goleadas históricas do primeiro semestre de 2010. Adeus ao time rápido e envolvente, cheio de toques irreverentes, gols e dancinhas comemorativas. Chegou a hora da defesa com três zagueiros, bons volantes de contenção, marcação rígida, cautela e caldo de galinha. Só falta chuveirinho na área adversária e um bom cabeceador para trombar com os beques rivais e marcar seus golzinhos lá na frente.

Será que vai ser assim? Não creio. E nem vi os amigos santistas incomodados com as gozações preventivas. Todo mundo sabe que o jogo em Americana (chatíssimo, por sinal) nem pode ser levado em consideração. Era o primeiro do Santos sob a batuta do novo técnico. O campo estava muito pesado e dificultava a movimentação – em especial a de um time leve como o do Santos. Além disso, com time misto, apesar da presença de vários titulares (inclusive os suspensos da Libertadores, Neymar, Zé Love e Elano), era nítido que o pensamento do Peixe estava no jogo de quinta-feira, contra o Cerro Portenho. Essa será a verdadeira estreia de Muricy Ramalho. No domingo, em Americana, houve no máximo um ensaio. Jogo mesmo, para valer, só depois de amanhã.

E não deixa de ser uma primeira prova de fogo para o novo treinador. Primeiro, porque o Cerro Portenho nada tem de bobo, em especial quando o jogo é no Defensores Del Chaco. Segundo, porque o Santos atua desfalcado principalmente de Neymar e Elano, dois jogadores fundamentais no esquema. Elano dá consistência ao meio de campo e tem resolvido nas cobranças de faltas; Neymar é o que cara que faz a diferença e destrói defesas com seus dribles. Sem eles, Muricy já começa tendo de resolver problemas e inventar soluções. Os santistas estão conformados e resmungam que “meio a zero” já está bom. É o velho e bom realismo de volta, depois de curto período de euforia e futebol de sonho?

Sei lá, mas não penso que Muricy deverá ir contra o famoso “DNA ofensivo” do time da Vila. Pelo menos enquanto dispuser de foras de série como Neymar e Ganso, que não se sabe quanto tempo ficarão por aqui. Com essa turma de qualidade, um time não tem como não ser agressivo. O desafio de Muricy será estabilizar o sistema defensivo e fazer o time parar de tomar gols tão fáceis como andou sofrendo nos últimos jogos. Tem também de tornar a equipe mais serena, com mais consciência do que deseja fazer em campo. Ele estava na Vila no jogo contra o Colo Colo e pôde sentir de perto o grau de instabilidade emocional dos seus comandados, que quase comprometeram uma vitória anunciada como fácil. Um dos fatores de desequilíbrio, possivelmente, é esse sai-não-sai de Ganso. Até onde se pode levar tamanha incerteza sem comprometer a estabilidade emocional de todo o elenco? Fazer frente a tantas tensões será uma parada e tanto.

A tal ponto que não se deveria cobrar nada do novo treinador, por alguns meses. Mas, aí é que está o problema: Muricy precisa começar a tirar coelhos da cartola já em sua primeira semana de trabalho, sob pena de comprometer todo um planejamento feito pelo clube, que tem como objetivo a disputa do título da Libertadores. Se o Santos, tido como um dos favoritos no início do ano, for eliminado logo na primeira fase, será difícil conter a depressão e a revoada prematura dos principais jogadores. Se isso acontecer (toc, toc, toc), Muricy terá de trabalhar com os que ficarem – ou seja, com as sobras de guerra. Não será nada fácil.

Portanto, esta semana, na Vila Belmiro, o pensamento deve ser um só: vencer ou vencer. Nem que seja por meio a zero.

Boleiros, 12/4/2011

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