As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A rotina do futebol e o brilho do craque

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h41

Não sei se alguém se tocou, mas o ibope da transmissão de TV de Brasil x Romênia foi muito maior do que o de Brasil x Holanda. 14 pontos a mais. Em tese, poderíamos esperar o contrário – o primeiro jogo seria muito mais atraente do que o segundo. Afinal, era a Holanda, a inventora do carrossel, adversário tradicional, asa negra da seleção na última copa, etc. Todos eles ingredientes interessantes. Mas a partida contra a Romênia possuía um tempero a mais, que a outra não tinha: a despedida de Ronaldo com a camisa da seleção.
Muitojá se escreveu sobre o Fenômeno e não estou aqui para repetir de maneira tosca o que colegas já descreveram com brilhantismo. Apenas quero lembrar o valor fundamental que o craque, o mito, o fora de série tem nessa atividade atlética mas também simbólica chamada futebol. Mesmo muito fora de forma, Ronaldo teve o poder de atrair todas as atenções sobre si naqueles singelos 15 minutos que lhe deram para jogar bola.
Os grandes têm essa aura inigualável. Ronaldo o provou, mais uma vez. É aquele magnetismo que alguns poucos possuem e fazem com que todos os olhares se voltem para eles, como atraídos por um gigantesco ímã. No mês passado, Pelé foi homenageado por um festival de cinema, o de Recife, que eu cobria para o jornal. Não me lembro de entrevista coletiva mais concorrida. Nem me lembro de frisson semelhante, ou de qualquer estrela ou astro da tela que pudesse rivalizar com o Rei na capacidade de chamar a atenção de todos, de despertar a admiração, de imantar as atenções de maneira implacável. Coisa para poucos. Mas os astros do futebol, pelo menos alguns entre eles, têm essa capacidade.
Sem contar com esses seres extraterestres, alguns dos nossos times estão se encaminhando bem no Campeonato Brasileiro. Revelam-se mais sólidos do que julgávamos a princípio, como é o caso do Palmeiras, que vem fazendo bela campanha. Ou do São Paulo, 100% no seu aproveitamento de pontos. Ou do próprio Corinthians, que mostrou sua estabilidae constância ao derrotar o Fluminense domingo. O futebol vive disso também e, eu diria, vive da sua rotina na maior parte do tempo.
Dou outro exemplo. Um amigo santista, ao ver o gol de Borges no empate contra o Cruzeiro, comentou: “Gol típico de um time de Muricy Ramalho”. Cruzamento na área, cabeçada de um centroavante oportunista e – bola na rede. O comentário desse meu parceiro não era depreciativo o u crítico. Pelo contrário. Estava feliz que um time reserva arrancasse um pontinho lá nas Minas Gerais, terra do adversário. Tomara seja assim na Libertadores, disse ainda, um golzinho chorado no final e pronto.
No fundo, o torcedor sonha com isso, o resultado, mas também quer mais. Quer ver algum lance de exceção, inesquecível, um gol de placa para fechar a conquista de maneira épica. Deseja o acabamento de uma obra de arte para coroar o título. Que, claro, seria comemorado de qualquer jeito, até com gol de mão ou em impedimento (não sejamos ingênuos). Mas que acabaria melhor com um golaço. Para isso contamos com os gênios do futebol, os craques, os diferentes, os incompreensíveis. Essa capacidade de fazer o que os outros não fazem, lhes dá a aura de super-heróis.
O nosso futebol doméstico, como já disse, torna-se cada vez mais sólido e competitivo, o que é boa notícia. Deve ser a influência de treinadores como Muricy Ramalho, Luis Felipe Scolari, Tite e Paulo César Carpegiani, entre outros. Muito mais raros são os momentos de fantasia, de quebra da ordem estabelecida, de arte, que apenas os jogadores de exceção podem nos proporcionar. No fundo, vamos ao campo de jogo em busca de um desses momentos de poesia, que acontecem de raro em raro, mas que justificam plenamente toda a espera.
Entre um jogo de futebol e outro, entre um festival de cinema e outro desta minha vida nômade, vou lendo com calma, saboreando o livro Gigantes do Futebol Brasileiro, de João Máximo e Marcos de Castro. Os dois jornalistas traçam perfis de 21 desses seres de exceção, a começar por Friedenreich e terminando por Ronaldo. O futebol precisa tanto dos boleiros foras de série como dos grandes escritores para perpetuar-lhes os feitos perante a História.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: