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A santa diversidade

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 22h57

4/5/2010

O título do Santos premia a melhor campanha do time no Campeonato Paulista. Se este fosse disputado pelo sistema de pontos corridos – o mais justo de todos – não teria sofrido qualquer sobressalto. Já em semifinais e finais, quase tudo pode acontecer. Até mesmo o time de melhor retrospecto perder o título, como quase sucede com este Santos bossa nova.

Acontece que cada partida constrói sua própria história e jogos decisivos o fazem com mais vigor. Apresentam um desenho mais nítido da abertura do futebol para fatores acidentais, para o imponderável, sua vocação para o drama e a tragédia, às vezes para a farsa. É também por isso que o sistema de mata-matas tem seus defensores ferrenhos, pois esses jogos produzem muita adrenalina, tensão, emoção. Como aconteceu nesta última partida entre Santos e Santo André da qual, diga-se o que se quiser, é para ser lembrada pelas duas torcidas e também por todos os que amam o futebol.

A partida despertou interesse geral. Como estava em viagem, no Recife, assisti ao jogo no saguão do hotel. Em frente à televisão formou-se uma pequena arquibancada, com torcedores santistas convivendo com os secadores de plantão. Parecia jogo de Copa do Mundo. Detalhe: havia vários pernambucanos vendo a final do Campeonato Paulista, que se dava no mesmo horário em que Náutico e Sport se enfrentavam no primeiro jogo da decisão local. Alguns justificavam a opção pouco usual: “o Santos está jogando demais, quero ver Neymar e Ganso”.

Quem poderia adivinhar que o jogo seria apimentado por tantos ingredientes como o gol-relâmpago, as expulsões, a coragem do Santo André, a raça do Santos, a atuação suntuosa de Ganso? Tudo isso transformou este Santos 2 x Santo André 3 num jogo especial. Não apenas pela temperatura emocional, pela dramaticidade, pelos belos gols e sentido de luta dos times, mas porque bota mais lenha na fogueira da discussão sobre a competitividade de um tipo de futebol.

Para mim, a questão já estava encerrada. Afinal, o time que joga bonito e de maneira ofensiva havia terminado a fase de classificação com 10 pontos de vantagem sobre o Santo André, segundo colocado. Nessa etapa, ganhou 15 jogos, empatou dois e perdeu dois. Marcou 61 gols e sofreu 24, ficando com saldo de 37. Quer eficácia maior? Chegou à semifinal e eliminou o São Paulo. Nas finais, pegou uma parada indigesta com o Santo André, esteve por um fio e acabou campeão exatamente pela vantagem acumulada na fase de classificação.

Claro que sempre existirão estraga-prazeres para dizer que o título paulista não vale nada e o Santos terá de provar que é bom mesmo na Copa do Brasil, já tendo amanhã a missão de reverter a vantagem do Atlético Mineiro. Se passar, terá de vencer o torneio e, caso o faça, dirão que o desafio é ganhar a Libertadores, e assim por diante. Mas por que se incomodar com os chatos da opinião formada?

A grande lição disso tudo, para mim, é a seguinte: existem muitas maneiras de jogar e, para o futebol, é muito saudável que estilos divergentes disputem a primazia entre si. Houve tempo em que técnicos, em especial os internacionais, falavam em um certo “futebol mundial”. Este seria uma maneira única e inevitável de jogar a que o futebol teria chegado depois de experimentar todas as variações possíveis. Parreira chegou a falar sobre o assunto. Felipão acrescentou que times com dois atacantes tinham os dias contados, logo os veríamos com um único atacante e, no futuro, talvez nenhum. Muita gente lhes deu razão.

Será isso mesmo, por um lado, mas a tese da cautela absoluta terá de conviver com a filosofia do jogo ofensivo e do risco. Num dia, o Barcelona será eliminado pela retranca da Internazionale e noutro o Santos de Ganso, Robinho & Neymar levantará uma taça de campeão. Assim é a vida, com sua incerteza. E sua santa diversidade.

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