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A seleção e o presidente

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 22h02

9/9/2008

PARIS
Estou fora do Brasil e não consegui ver o jogo da seleção contra o Chile. Li
os jornais pela internet e, segundo comentaristas que respeito, o Brasil
jogou no ataque, com garra e criatividade. Pelo menos em boa parte do tempo.
Era o que todo mundo queria. O que todo mundo cobrava. Só que a seleção não
aceita cobranças. A não ser… A não ser que elas venham do próprio
presidente da República.
O caso repercutiu até na Itália, onde eu estava na semana passada. Saiu
matéria grande no Corriere della Sera, motivada pela resposta irada de Julio
Cesar a Lula. Lula havia dito que faltava garra a nossos jogadores. E, pior,
que Messi era atualmente o melhor do mundo, mas quando perdia a bola corria
atrás do adversário, tentando retomá-la. Enquanto isso, os “nossos” ficavam
de braços cruzados. Alguém aí discorda? Lula disse ainda que os jogadores
iam embora cedo do Brasil e talvez fosse melhor formar uma seleção com
atletas que atuassem no País. O goleiro discordou de tudo, claro. E, falando
em nome da corporação, disse que, nesse caso, seria melhor o presidente se
naturalizar argentino e torcer pelo Messi e pela seleção dos hermanos. Deixo
aos leitores as conclusões sobre a oportunidade desse desabafo de Julio
Cesar. Mas soube que as palavras do presidente foram lembradas por Dunga,
que estava com a cabeça a prêmio, antes do jogo contra o Chile. Usou a “fala
presidencial” com a sabedoria que não mostrou em outras ocasiões e com isso
parece ter motivado os jogadores.
Bem, não sabemos se foi isso que botou os nossos queridos boleiros para
correr atrás da bola e disputá-la com certa disposição. Repito: não vi o
jogo. Mas, pelos relatos, produziu-se aquele fenômeno que já conhecemos, e
de antigos carnavais: a seleção rende melhor quando desafiada. Quando todos
a consideram favorita vem aquele vexame anunciado. Portanto, depois do
fiasco na Olimpíada, o que a camisa amarela precisava era de um pouco de
pimenta, de adrenalina e tempero, para que o pessoal descesse do pedestal e
jogasse um pouco de bola.
Mas as palavras de Lula vão além, a meu ver. Elas não simplesmente refletem
exatamente o que pensa o homem da rua, que não tem nada a ver com
conveniências nem com o pensamento politicamente correto. Mas esse mesmo
desabafo do presidente-torcedor recoloca em pauta uma questão importante
nessa época de globalização do esporte e, em especial, do futebol: a quem
pertence a seleção? Talvez não precisemos tombá-la como bem público, como
propôs recentemente um político, para lembrar que a seleção pertence, de
direito, ao povo brasileiro. É um valor simbólico que ele cultua, ou
cultuava. E que, em outra época, o ajudou a construir um sentimento de
identidade nacional.
Mas, se de direito, a seleção pertence ao povo, de fato ela é usufruto de
gente muito diferente. Em primeiro lugar, da CBF, que explora avidamente sua
marca e a “desnacionalizou” até o limite do intolerável. Raramente a seleção
joga no País para aquela que, em tese, é sua torcida. “Nossa casa” não é o
Maracanã, mas o Emirates Stadium, em Londres. Os jogadores não parecem dar a
mínima para a camisa amarela, embora, claro, digam o contrário. Há exceções,
mas, para a maioria, parece que a seleção não passa de, como eles dizem
também dos clubes que os lançam, uma “boa vitrine”. Diga-se o que se quiser,
mas com mentalidade dessas não se faz equipe vencedora.
Portanto, parece que o cutucão presidencial valeu. Pelo menos por um jogo. O
que a seleção precisaria, para voltar a ser grande como já foi, seria
mudança radical dessa visão de mundo mercantilista. Mas conseguir isso já é
bem mais difícil.

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