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A seleção e o presidente

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h39

PARIS – Estou fora do Brasil e não consegui ver o jogo da seleção contra o Chile. Li os jornais pela internet e, segundo comentaristas que respeito, o Brasil jogou no ataque, com garra e criatividade. Pelo menos em boa parte do tempo. Era o que todo mundo queria. O que todo mundo cobrava. Só que a seleção não aceita cobranças. A não ser… A não ser que elas venham do próprio presidente da República.
O caso repercutiu até mesmo na Itália, onde eu estava até a semana passada. Saiu matéria grande no Corriere della Sera, motivada pela resposta irada do goleiro Júlio César a Lula. Lula havia que faltava garra aos nossos jogadores. E, pior, que Messi era atualmente o melhor do mundo, mas quando perdia a bola corria atrás do adversário, tentando retomá-la. Enquanto isso, os “nossos” ficavam de braços cruzados. Alguém aí discorda? Lula disse ainda que os jogadores iam embora cedo do Brasil e talvez fosse melhor formar uma seleção com atletas que atuassem no País.
Júlio César discordou de tudo, claro. E, falando em nome da corporação, disse que, nesse caso, seria melhor o presidente se naturalizar argentino e torcer pelo Messi e pela seleção dos hermanos. Deixo aos leitores as conclusões sobre a oportunidade desse desabafo de Júlio César. Mas soube que as palavras do presidente foram lembradas por Dunga, que estava com a cabeça a prêmio antes do jogo contra o Chile. Usou a “fala presidencial” com a sabedoria que não mostrou em outras ocasiões e com isso parece ter motivado os jogadores.
Bem, não sabemos se foi isso que botou os nossos queridos boleiros para correrem um pouco atrás da bola e disputá-la com certa disposição. Repito: não vi o jogo. Mas, pelos relatos, produziu-se aquele fenômeno que já conhecemos, e de antigos carnavais: a seleção rende melhor quando desafiada, desacreditada. Já quando todos a consideram favorita, vem aquele vexame anunciado. Portanto, depois do fiasco nas Olimpíadas, o que a camisa amarela precisava era de um pouco de pimenta, de adrenalina e tempero, para que o pessoal descesse do pedestal e jogasse um pouco de bola.
Mas as palavras de Lula vão além, a meu ver. Elas não simplesmente refletem exatamente o que pensa o homem da rua, que não tem nada a ver com conveniências e nem com o pensamento politicamente correto. Mas esse mesmo desabafo do presidente-torcedor recoloca em pauta uma questão importante nessa época de globalização do esporte e, em especial, do futebol: a quem pertence a seleção nacional? Talvez não precisemos tombá-la com bem público, como propôs recentemente um político, para lembrar que a seleção pertence, de direito, ao povo brasileiro. É um valor simbólico que ele cultua, ou cultuava. E que, em outra época, o ajudou a construir um sentimento de identidade nacional.
Mas, se de direito, a seleção pertence ao povo, de fato ela é usufruto de gente muito diferente. Em primeiro lugar, da CBF, que explora avidamente a sua marca e a “desnacionalizou” até o limite do intolerável. Raramente a seleção joga no País para aquela que, em tese, é a sua torcida. “Nossa casa” não é o Maracanã, mas o Emirates Stadium, em Londres. Os jogadores não parecem dar a mínima para a camisa amarela, embora, claro, digam o contrário. Há exceções, mas, para a maioria, parece que a seleção não passa de, como eles dizem também dos clubes que os lançam, uma “boa vitrine”. Diga-se o que se quiser, mas com uma mentalidade dessas não se faz uma equipe vencedora.
Portanto, parece que o cutucão presidencial valeu. Pelo menos por um jogo. O que a seleção precisaria, para voltar a ser grande como já foi, seria uma mudança radical dessa visão de mundo mercantilista. Mas pedir isso já é bem mais difícil.

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