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A taça, o tempo e a memória

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 23h00

Domingo à noite, após a rodada, fui ao cinema para limpar a vista depois de ver tantos jogos ruins. No shopping, chamava a atenção um grupo de jovens tirando fotos. Fui ver o que era. Uma taça. Bonita, dourada, em estilo tradicional. Mas o que seria aquela copa? Cheguei mais perto e vi: era a taça do Campeonato Paulista de 2010, vencido pelo Santos. Estava lá, em exposição pública, e as pessoas posavam com a copa dourada ao fundo. Fui tomado por uma sensação estranha. Já havia quase esquecido dessa conquista. Parecia coisa do ano passado, de outras eras, do século anterior. E, no entanto, o Santos ganhou o campeonato no dia 2 de maio, duas semanas atrás. Já ficou na poeira do tempo.

Claro, as taças existem para isso mesmo, para nos lembrar de determinado feito. São objetos simbólicos, que nos ajudam na luta contra o esquecimento. De qualquer forma, fiquei comovido ao ver aquelas pessoas em torno desse objeto, tirando fotos, guardando suas próprias relíquias pessoais que, se não forem deletadas ou esquecidas no celular, se transformarão em outros tantos objetos com a finalidade de recordar uma coisa boa do passado. Pode ser que daqui a cinco, dez anos, talvez mais, alguém mostre essa foto a outra pessoa e diga: “Olha eu aí, ao lado daquela taça que o Santos ganhou.” E então terá saudades daquele momento, e talvez saudades de si mesmo.

Fiquei feliz pelas pessoas e pelo bom astral do ambiente. E, ao mesmo tempo, preocupado. Por que tudo hoje envelhece de maneira tão rápida? Uma resposta pode vir do ritmo frenético da nossa vida, que atinge também o futebol. Hoje um time comemora o título. Amanhã já deve se concentrar, pois está na véspera de outro jogo decisivo. E assim por diante. Foi o que aconteceu com o Santos e vários outros times brasileiros neste começo de temporada.

O Santos saiu da conquista do título regional para uma disputa de vida ou morte três dias depois com o Atlético Mineiro, que também havia levantado a taça em seu Estado. Um avançou, outro foi eliminado e, no meio tempo, começou o Campeonato Brasileiro pelo sistema de pontos corridos, em que todas as partidas são igualmente importantes. Vivemos repetindo essa ladainha: pontos hoje perdidos serão lamentados amanhã. Nada mais certo e imagino que os técnicos também martelem essa verdade a cada preleção. Mas, podemos de fato culpar os jogadores se, com esse tipo de calendário, não conseguem manter o mesmo ritmo ao longo de toda a temporada?

Acho que não. Se aos torcedores não é dado o tempo nem de curtir as vitórias e nem de lamber as feridas, aos atletas não se concede a oportunidade de se recuperar. Nem física e nem mentalmente. Acho que esse desgaste, atlético e psicológico, está na origem dos jogos chochos que andamos vendo. Claro, os times envolvidos na Copa do Brasil e na Libertadores dividem-se entre as disputas. Poupam jogadores, entram com equipes mistas e, mesmo se escalam titulares, estes estão com a cabeça em outro lugar. Não podem render, pois não conseguem se concentrar na partida.

Acima de tudo, falta o tempo fundamental para que as derrotas e vitórias sejam assimiladas, digeridas, choradas ou comemoradas, curtidas até o fim ? e assim se possa passar para outra coisa, outro torneio,um novo desafio. Do jeito que está, tudo se mistura e perde em significado e intensidade. Não temos tempo de saborear uma conquista ou se refazer de um naufrágio. Tanto a depressão de quem perde quanto o relaxamento de quem vence são reações humanas naturais, e que deveriam ser respeitadas por quem “planeja” o futebol. Mas essa gente pensa que jogadores e torcedores são máquinas e não seres humanos. O show tem de continuar. Mesmo que com baixa qualidade.

(Coluna Boleiros, 18/5/10)

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