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A taça, o tempo e a memória

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h59

Domingo à noite, depois da rodada, fui ao cinema para limpar a vista, depois de tantos jogos ruins. No shopping, me chamou a atenção um grupo de jovens tirando fotos com seus celulares. Fui ver o que era. Uma taça. Bonita, dourada, de estilo tradicional. Mas o que seria aquela copa? Cheguei mais perto e vi: era a taça do Campeonato Paulista de 2010, vencido pelo Santos. Estava lá, em exposição pública, e as pessoas posavam para fotos com a copa dourada ao fundo. Fui tomado por uma sensação estranha. Já havia quase esquecido dessa conquista. Parecia coisa do ano passado, de outras eras, do século passado. E, no entanto, o Santos ganhou o campeonato dia 2 de maio, meras duas semanas atrás. Já ficou na poeira do tempo.
Claro, as taças existem para isso mesmo. Para nos lembrar de determinado feito. São objetos simbólicos, que nos ajudam na luta luta contra o esquecimento. De qualquer forma, fiquei comovido ao ver aquelas pessoas em torno desse objeto, tirando fotos, celebrando um feito, guardando suas próprias relíquias pessoais que, se não forem deletadas ou esquecidas na máquina, se transformarão em outros tantos objetos com a finalidade de lembrar uma coisa boa do passado. Pode ser que daqui a cinco, dez anos, talvez mais, alguém mostre essa foto a outra pessoa e diga: “Olha eu aí, ao lado da taça que o Santos ganhou em 2010…” E então terá saudades daquele momento, e talvez saudades de si mesmo.
Fiquei feliz pelas pessoas e pelo astral positivo reinante no ambiente. E, ao mesmo tempo, preocupado. Por que tudo tende a ficar velho de maneira tão rápida hoje em dia? Uma resposta deve vir do ritmo frenético da nossa vida, que atinge também o futebol. Hoje um time está comemorando um título. Amanhã já deve se concentrar, pois está na véspera de outro jogo decisivo. E assim por diante. A máquina não pode parar. O show tem de continuar. Foi o que aconteceu com o Santos e vários outros times brasileiros neste começo de temporada.
O Santos saiu da conquista do título regional para uma disputa de vida ou morte com o Atlético Mineiro, que também havia levantado a taça em seu Estado. Um avançou, outro foi eliminado e, no meio tempo, começou o Campeonato Brasileiro pelo sistema de pontos corridos, em que todas as partidas são igualmente importantes. Vivemos repetindo essa ladainha: pontos perdidos hoje serão lamentados amanhã. Nada mais certo e imagino que os técnicos também martelem essa verdade a cada preleção. Mas, podemos de fato culpar os jogadores se, com esse tipo de calendário, não conseguem manter o mesmo desempenho ao longo de toda a temporada?
Acho que não. Se aos torcedores não é dado o tempo nem de curtir as vitórias e nem de lamber as feridas, aos atletas não se concede a oportunidade de se recuperar. Nem física e nem mentalmente. Acho que esse desgaste, atlético e psicológico, está na origem dos jogos chochos que andamos vendo. Claro, os times envolvidos na Copa do Brasil e na Libertadores dividem-se entre as disputas. Poupam jogadores, entram com equipes mistas e, mesmo se escalam titulares, estes estão com a cabeça em outro lugar. Não podem render, pois não conseguem se concentrar na partida.
Além disso, acho que falta o tempo fundamental para que as derrotas e vitórias sejam assimiladas, digeridas, choradas ou comemoradas – e assim se possa passar para outra coisa. Outro torneio, um novo desafio, enfim, nova realidade. Do jeito que está, tudo se mistura e perde em significado. Não temos tempo de saborear uma conquista ou de se refazer de um naufrágio. Tanto a depressão de quem perde quanto o relaxamento de quem vence são reações humanas naturais, e que deveriam ser respeitadas por quem “planeja” o futebol. Mas essa gente pensa que jogadores e torcedores são máquinas e não seres humanos.

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