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A torcida tem fome de beleza

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 13h32

Durante uma caminhada em Jaboatão dos Guararapes, vizinho do Recife, fiquei
impressionado com a quantidade de gente batendo bola na praia.  Um jogo atrás
do outro, com seus golzinhos precários, às vezes feitos com cascas de cocos,
quilômetros a fio, a perder de vista.
Semana passada estive em Belém do Pará e a cidade parecia vestida de azul.
Azul do Paysandu, que ocupa modesta posição na tabela e jogava no dia seguinte contra o São Caetano no Anacleto
Campanella.  Mas pelo ar de festa da cidade, parecia que ia disputar uma
final de campeonato.  E, pelo que ouvi das pessoas, elas nem acreditavam
tanto no time.  Perguntei a um vendedor de açaí no mercado de Ver-o-Peso o
que ele achava do jogo: “Lá é ruim de ganhar, doutor.” Ruim mesmo.
Tanto assim que o Papão acabou papado por 3 x 0.
Nas areias de Jaboatão e nas ruas de Belém está a explicação para o Brasil ser uma potência mundial nesse
esporte da bola.  Mas tratar o futebol como esporte é defini-lo por baixo.  Acho que deve ser
visto como expressão cultural maior do povo brasileiro.  Todo garoto
brasileiro é obrigado, bem cedo, a escolher o manto sagrado sob o qual se
abrigará ao longo da existência.  Decisão dura, de responsabilidade.  O clube
para o qual se torce é uma dessas opções fundamentais, grave como a escolha
de uma profissão ou da mulher que passará a acompanhar-nos na vida.  Com a
diferença de que não se troca de time jamais, em nenhuma circunstância.
Todo menino brasileiro joga bola, disputa suas peladas.  Os poucos que não
jogam são olhados de lado e com desconfiança.  São discriminados, como se a
falta de paixão pela bola escondesse algum vício turvo.  E fale com qualquer
pessoa – ela poderá contar a sua vida através do futebol.  O que estava
fazendo quando o Brasil foi campeão do mundo em 1970?  Ou quando perdemos no
Sarriá em 1982?  Que jogo marcou sua vida?  Qual a maior tristeza e a maior
alegria que seu time lhe deu?  O jogo da bola acompanha nossa história
pessoal e coletiva.  Está inscrito no nosso DNA de nação. É a nossa cara.
Por isso acho um crime de lesa-povo essa debandada dos nossos melhores
jogadores para o exterior.  Não vamos nem entrar na discussão de se a culpa é
da Lei Pelé ou da incapacidade dos cartolas.  Ou se o êxodo obedece à força
fria do capital.  O fato é que essa expressão máxima da nossa identidade
futebolística, que é o craque, passou a considerar o Brasil uma etapa
transitória da sua carreira.  O antigo clube do coração é agora uma vitrine.
Um chamado para a seleção, o trampolim que faltava para o empresário
negociá-lo com um clube europeu, essas multinacionais da bola.  Me desculpem
a franqueza, mas acho isso o fim da picada.
Não é à-toa que os estádios andam vazios em boa parte do País.  Não adianta
culpar a fórmula da disputa, ou a falta de infra-estrutura ou mesmo a
segurança precária.  O público não vai porque, com raras exceções, o
espetáculo não vale a pena mesmo.  E não vale a pena porque, sem craques,
futebol não dá pé, com perdão do trocadilho.  Ninguém agüenta muito tempo um
time apenas esforçado.  Vamos falar com sinceridade: o tal “futebol de
resultado” é chato de doer.  O torcedor quer ver o seu time ganhar, claro.
Mas quer arte, acima de tudo. É a fome de beleza que o leva ao estádio.  Faz
com que enfrente o preço caro do ingresso, o sol e a chuva, o cimento frio
da arquibancada, o banheiro imundo, a cerveja quente, a torcida organizada.
Faltando a beleza, faltará também a motivação para sair de casa.
Por isso, acho que devemos abrir uma ampla discussão em busca de meios para
manter os nossos craques no País.  Essa é a grande questão do futebol
brasileiro atual.  O resto é conversa.  E conformismo.
21/10/2004
(Obs: esta é a primeira coluna da série Boleiros)

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