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A volta por cima

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h41

20/5/2008

Todos colocamos muito de nós mesmos nesse esporte chamado futebol. Por isso
talvez seja inevitável que nos interessemos pela chamada “vida extra-campo”
dos jogadores. Podemos ser civilizados a ponto de admitir que o que acontece
fora das quatro linhas é do foro íntimo de cada um. Não temos nada a ver com
a vida particular deste ou daquele boleiro. Ele é um profissional e tudo que
podemos exigir é que defenda direito a camisa do nosso clube de coração.
Isso é o racional. E funcionaria na prática, fosse a profissão de jogador
como outra qualquer, digamos advogado, dentista ou serventuário da Justiça.
Sobre o jogador, no entanto, projetamos nossas esperanças e sonhos;
projetamos também nossas frustrações, às vezes nossos ódios e preconceitos.
Por isso não conseguimos ficar indiferentes a um momento como o das lágrimas
de Denilson depois do jogo contra o Internacional. Denilson marcou, e foi o
melhor em campo. Ele, dado como acabado para o futebol, jogador improdutivo,
de fantasia, uma espécie de foca amestrada e com prazo de validade vencido.
Pois bem, esse jogador retorna, ganha um voto de confiança e reencontra o
futebol que há muito não jogava. No domingo, as lágrimas corriam por seu
rosto ao dizer que era muito difícil viver quando ninguém acredita mais em
você. Por que duvidar dele? Não tenho a menor idéia se Denilson vai
continuar a render bem em campo, se sua atuação contra o Inter foi fogo de
palha, etc. Isso, o tempo dirá. Mas, que ele teve no domingo o seu momento
de volta por cima, conforme aquele samba de Paulo Vanzolini, lá isso ele
teve. E foi bonito de ver.
Como também é agradável assistir à redenção de Adriano, que veio ao São
Paulo na condição de caso perdido e tem sido o principal definidor da
equipe. Dá para ver o brilho de volta ao olhar do Imperador, que vai logo
embora para a Europa, mas, pelo jeito, deixa sua passagem breve marcada na
memória do torcedor são-paulino. Hoje tudo dura pouco, tudo é espuma. Esse
tipo de lembrança é o máximo a que se pode aspirar.
Se não conseguimos ficar indiferentes às lágrimas de um ou ao júbilo do
outro, da mesma forma nos envolvemos, querendo ou não, nos escândalos e
fofocas do futebol, como se viu com o caso Ronaldo. Também o Fenômeno aos
poucos vai se afastando da onda negativa criada com o affair dos travestis.
Passada a tempestade inicial, o triunfo pouco duradouro da imprensa marrom,
parece que o bom senso vai se impondo. Ronaldo deu uma pisada na bola;
apenas isso. Por que crucificá-lo? Quando vi na TV uma charge com Pelé pondo
Ronaldo no colo e dando-lhe umas palmadas na bunda, pensei comigo que o caso
estava se diluindo através do humor. Lembrei de que o símbolo de Dioniso, o
deus grego da festa, da dança e da embriaguez, é um ramo. Os pecados de
Dioniso, que são os pecados do excesso, devem punidos com moderação, usando
como açoite um raminho inofensivo que não faz mal a ninguém. E é isso mesmo.
A tolerância é uma grande virtude, pouco exercida num tempo em que todos se
acham investidos da condição de justiceiros e se sentem donos de uma verdade
geral e irrecorrível.
NO CAMPO
Com o Brasileirão ainda fazendo seus primeiros movimentos, o jeito é entrar
de cabeça numa semana que promete emoções fortes em outras disputas. Hoje,
Botafogo x Corinthians; amanhã, Fluminense x São Paulo; na quinta, Santos x
América. Acho os dois primeiros jogos equilibradíssimos. Já no terceiro, o
Santos deve ganhar, mas conseguirá a vitória de que precisa, com dois ou
mais gols de diferença? Essa é a questão.

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