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Afinal, quem são os mercenários?

Luiz Zanin Oricchio

30 de dezembro de 2011 | 00h00

Sei que a situação entre Ganso e Santos está cada vez pior. Parte da torcida tachou o jogador de mercenário na derrota para o Palmeiras, domingo na Vila. Como não estava lá, não sei avaliar a dimensão da coisa. Pode ter sido uma minoria. Depois ouvi por uma rádio o coro dos descontentes. Pareciam uns três ou quatro gatos pingados, aquele tipo de gente que fica indignada diante das câmeras de TV e os microfones abertos, e depois se cala. De toda forma, mesmo vindo de uma minoria e, portanto, de parte não representativa da torcida, esse tipo de xingamento revela pelo menos um sintoma. A relação não é boa, e pode se deteriorar ainda mais, precipitando a saída do jogador. Mas não é exatamente isso o que ele deseja? Não é essa uma atitude padrão? Jogador anuncia que deseja ir embora; torcida o repudia; ele então diz que não tem mesmo mais ambiente e vai-se embora. Fim de jogo.

Todo jogador sabe que se quiser se queimar com a torcida, basta dizer que tem vontade de deixar o clube. É infalível. E por motivo dos mais simples. A torcida recebe esse tipo de declaração como insulto àquilo que mais preza no mundo – a camisa do seu time de coração. É como se o jogador dissesse que aquele manto sagrado não o aquece; que o clube é mera vitrine, passo intermediário para o que de fato interessa, o grande europeu onde terá fortuna e fama planetária. A torcida se ofende, mesmo se o boleiro repetir o chavão generalizador: “Todo jogador sonha em ir para a Europa e eu não sou diferente, etc.”

Não adianta colocar as coisas nestes termos. Há um abismo intransponível entre esse tipo de jogador negociável e a torcida. Um trabalha na base da fria racionalidade econômica; a outra, no registro da emoção. Dificilmente se encontram. E, quando se encontram, o casamento é breve. Assim é a vida, no nosso tempo. E, para falar a verdade, a coisa pode ter se agravado, mas vem de muito longe. Dizem que quando Leônidas da Silva trocou o Flamengo pelo São Paulo, foi chamado de…mercenário, do que mais? E não parece ter sido o primeiro. Domingos da Guia, o Divino Mestre, conhecido pela dureza com que negociava contratos, era malvisto por dirigentes. O inocente Garrincha brigou com a diretoria do Botafogo, etc.

Enfim, o profissionalismo implica conflitos de interesse e cada um procura onde pode realizar suas aspirações, em especial se estas se traduzem em cifras astronômicas. Simples assim. Claro que tudo se alterou muito da época de Leônidas para cá. Naquele tempo, o jogador era pouco mais que uma mercadoria do clube, que fixava o preço do seu passe como bem queria. Hoje tudo mudou para o extremo oposto e o clube virou a parte fraca na relação. Jogadores e seus representantes, incluindo aí aqueles que detêm parte dos seus direitos econômicos, ditam as regras. Ao clube cabe formar atletas, pagar salários de marajás a crianças imberbes, sustentá-los quando se contundem, investir no tratamento médico (e psicológico) e, quando curados, ouvi-los dizer que à noite sonham mesmo é com o Barcelona e com o Milan. É a vida, amigos. Mas é claro que também isso não está direito e um certo reequilíbrio deverá ser encontrado no futuro. Mesmo porque existem contratos e eles deveriam ser respeitados, como acontece em qualquer outro tipo de relação na sociedade, de aluguéis a vínculos de trabalho.

Ganso, por exemplo, tem contrato assinado com o Santos até 2015 e não deveria estar fazendo marola tanto tempo antes do seu vencimento. Deveria voltar a jogar bola e deixar as coisas correrem mais frouxas porque, ao reencontrar seu futebol de antes da contusão, fará fortuna de uma maneira ou de outra. Não precisa se afobar e nem entrar na conversa de quem quer apenas lucro rápido e fácil. Esses, sim, são os verdadeiros mercenários. Os profissionais.

Boleiros, 5/4/2011

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