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Afinal quem tem razão, a torcedora ou os críticos?

Luiz Zanin Oricchio

30 de dezembro de 2011 | 00h10

Terminados os campeonatos regionais, é hora de cumprimentar os vencedores e fazer um balanço. Dando uma geral, parece que a única surpresa, que merece ser chamada de zebra, deu-se com o título do Bahia de Feira de Santana em cima do Vitória, que jogava em seu campo e pelo empate. Um desses imprevistos, que derrubam os profetas apressados e fazem do futebol tudo aquilo que ele é em termos de imaginário popular.

Nos outros grandes centros, nenhuma grande novidade. No Rio, o Flamengo já havia levado o título. No Rio Grande do Sul, deu Inter, nos pênaltis, em cima do Grêmio. E, em Minas, levou o Cruzeiro que, com a vitória sobre seu rival, o Atlético Mineiro, amenizou um pouco a dor pela inesperada eliminação da Libertadores da América. Em São Paulo, o Santos comprovou o favoritismo técnico e levou o bicampeonato.

Santos, Cruzeiro e Internacional, campeões em seus Estados, são vistos pelos comentaristas como possíveis favoritos ao Brasileirão que começa no próximo fim de semana. Concordo. Não venceram por acaso. Têm elencos mais equilibrados e jogadores em condições de fazer a diferença em um jogo, como também apontam os especialistas. Ora, se são favoritos no Campeonato Brasileiro, isso quer dizer que os Estaduais, às vezes tão menosprezados, querem dizer alguma coisa. Servem ao menos de termômetro para as possibilidades de um time, revelando também suas fraquezas, suas necessidades de reforço ou de mudança de comando. Ou não?

De modo que não consigo ver os Campeonatos Estaduais como disputas obsoletas, um anacronismo que deveria ser extinto a bem do futebol brasileiro. Longe disso. Acho que eles mantêm viva a tradição e a rivalidade do jogo da bola em seus primórdios, quando vizinho jogava contra vizinho. Não dá para limar, sem mais nem menos, uma competição como a paulista, nascida em 1902! É muita tradição em jogo.

O respeito por instituições veneráveis não quer dizer que elas não possam ser reformadas e adequadas ao tempo presente. Pelo contrário. Se não se adaptarem à realidade, aí sim correm risco de extinção. Aqui neste mesmo espaço andei criticando o excesso de jogos do futebol brasileiro. Ora, uma das razões dessa distorção é justamente o inchaço dos Estaduais. Há clubes demais, muitos deles sem qualquer condição técnica de competição. Pior: clubes de aluguel ocupando espaço de outros; clubes fantasmas, de propriedade de “empresários” da bola, clubes sem identidade, que mudam de cidade como pessoas higiênicas deveriam mudar de camisa.

Essas excrescências sim, seria preciso limar. Ficar no essencial. Enxugar os campeonatos. Reduzi-los para que se tornem melhores e não atravanquem o resto do ano. Para defender os Estaduais não preciso ser conivente com a ideia deste Campeonato Paulista, com seus 20 concorrentes e uma fórmula de disputa tosca e disparatada. Há que reformar e evoluir para que se preserve o fundamento, a disputa da supremacia entre rivais próximos, que é a própria alma dos Estaduais.

Uma imagem que me ficou dessa final de Campeonato Paulista foi o de uma jovem torcedora do Santos, na Vila. Ela acompanhou o jogo todo com paixão e medo. Xingou o juiz, incentivou Neymar e companheiros, e comemorou os gols. No final, exigia o fim da partida, angustiada com a possibilidade de um empate. Quando o árbitro Luiz Flávio levantou os braços, encerrando o jogo, ela caiu em pranto convulsivo. Nem o namorado era capaz de consolá-la. Uma cena bonita, que vi em poucas ocasiões, como numa Copa do Mundo. Como alguém seria capaz de dizer a essa moça que o título que seu time acabara de ganhar não tinha qualquer significado e ela chorava em vão? Quem se engana nesse momento? A torcedora ou os críticos?

17/5/2011

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