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Agonia e êxtase

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 13h55

A quem lhe perguntava por que motivo ia ao Maracanã, José Lins do Rego
respondia: “Vou para viver.” Para o autor de clássicos da literatura
brasileira como Menino de Engenho e Fogo Morto, era lá, no meio do povo, em
dia de jogo, que estava a vida. A vida verdadeira, real. A vida intensa. Zé
Lins, como o chamavam, foi também cartola do Flamengo, cronista esportivo e
chegou a chefiar uma delegação da seleção brasileira no exterior. Era um
bicho do futebol e sabia do que estava falando. Cansado do tédio da vida
cotidiana, o homem busca no estádio aquilo que é excepcional.
Neste fim de semana mesmo, alguns jogos em particular ofereceram essa
intensidade de vida a que aspirava o genial Zé Lins e a que aspiramos todos
nós. Refiro-me às vitórias do Flamengo sobre o Goiás por 1 a 0, do
Corinthians sobre o Atlético-PR por 2 a 1, e a do Santos sobre o
Internacional pelo mesmo placar. Poderia ajuntar a heróica resistência do
Palmeiras que, com nove jogadores, conseguiu sustentar o empate de 0 a 0
diante do Fortaleza.
Não me venham dizer que foram jogos de técnica limitada, etc e tal, essa
ladainha de observadores entediados. Foram, sim, jogos de alta tensão
dramática, que proporcionaram aos espectadores tudo aquilo que se vai buscar
num estádio – sofrimento, dor, alívio, redenção. Agonia e êxtase. Para o
Palmeiras, essa resistência de nove homens, que se agüentam quando tudo
parece desabar, teve sabor de vitória. Assim, o pontinho conquistado fora de
casa (e a manutenção da invencibilidade pós-Copa) caiu como dádiva para sua
torcida.
Nos casos de Corinthians, Flamengo e Santos foram vitórias sofridas, com
gols de última hora ou, no caso do Timão, com o adversário perdendo o empate
na hora agá, já que o volante Paulo Almeida tirou a bola de cabeça, em cima
da risca, no último minuto. O Mengão marcou com Obina nos descontos e vi o
que isso significou para sua torcida porque tenho flamenguistas dentro de
casa, que não paravam de pular e gritar como se tivessem ganho a Copa do
Mundo.
E tinham mesmo, porque do ponto de vista do torcedor é seu time o que
importa. Com sua vitória agônica, o Mengo saía da zona de rebaixamento. Com
sua vitória suada, o Corinthians quebrava a série de maus resultados. Com
sua vitória improvável, o Santos voltava a encostar na ponta da tabela.
Mas esses lucros, digamos assim, práticos, numéricos, não contam tudo da
importância dessas vitórias. Na Vila Belmiro, por exemplo, houve mais emoção
com esse jogo diante do Inter do que com uma conquista de campeonato. É
assim mesmo: partidas criam suas próprias histórias e a desta foi
eletrizante, como não se imaginava a princípio. Os ingênuos acreditavam que
seria fácil derrotar os reservas do Inter, mas estes se provaram melhores do
que muitos titulares que andam por aí. E fizeram 1 a 0 logo aos 10 minutos
do primeiro tempo com Iarley. O tempo foi se arrastando e nada do placar se
alterar. Quando Reinaldo foi expulso e Maldonado saiu contundido, o Santos
ficou com nove em campo. E toda esperança pareceu vã, como no verso de
Dante.
Mas então o time resolveu mostrar de que material era feito. Um jogador, até
ali tido como modesto, Wendel, decidiu que aquele era o seu dia. Sua hora e
sua vez. Verteu sangue em campo, como deve fazer qualquer um que honre sua
camisa. E foi recompensado com os dois gols da virada. Deu a louca no mundo?
O fato é que Wendel chutou uma falta como Pepe e cobrou um pênalti com
paradinha de Pelé. Como explicar? Algo me diz que um pouco da magia de que é
feito o futebol esteve em campo domingo à tarde no velho estádio Urbano
Caldeira. Como esteve no Maracanã e no Pacaembu. Um retrato distanciado
desses jogos não constata nada disso. Mas registros “frios e objetivos” não
ignoram justamente aquilo que é o fundamento do futebol?

8/8/2006

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