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Agora quem dá bola é Diego

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 22h23

Cheguei a Veneza para mais um festival de cinema e o signore Gardin, que todo ano me aluga bicicleta, meu transporte aqui no Lido, era um sorriso só. Até estranhei, porque os vênetos são tidos como meio secos e, como sou de família meio vêneta meio napolitana, sei bem como se distribuem os humores na Velha Bota. Mas o signore Gardin era todo alegria enquanto ajeitava uma magrela para meu uso. E por quê? Porque ele é torcedor da Juventus e estava deslumbrado com Diego. Dois gols na Roma, no domingo (3 a 1, no Olímpico), com atuação já tida como clássica pelos entendidos.

Meu interlocutor lembrou que Diego viera do Werder Bremen e eu ajudei sua memória recordando que o meia fora revelado num time chamado Santos Futebol Clube. Nesse ponto seus olhos brilharam. “Sim, conheço a cidade de Santos de fama, e sei que lá está a grande escola do futebol, a escola de Pelé”. É isso aí, senhores. A coisa foi pronunciada como se Diego tivesse vindo com uma espécie de selo de qualidade, marca sagrada e indelével, uma denominação de origem controlada como a dos grandes vinhos. A mística do time do Rei não é esquecida por aqueles que amam o futebol, em qualquer parte do mundo.

Saí a pedalar e, como uma coisa se associa a outra, lembrei de foto antiga que mostrava a dupla Diego & Robinho indo de bicicleta a um treino. Os dois tinham acabado de se revelar e haviam caído no gosto do público – e não apenas dos santistas. Viraram uma espécie de logotipo do futebol feliz, que ainda pode se jogar neste mundo de esquemas táticos rígidos, legiões de volantes e zagueiros truculentos.

O engraçado é que os italianos louvam características de Diego que já chamavam a atenção no início da sua carreira. O crítico Mario Sconcerti, do Corriere della Sera, diz que Diego não é um “brasileiro clássico, ele joga profundo e de modo quase linear”. Diz ainda que ele terá dificuldade em voltar à seleção, e não apenas pela concorrência. “É que o Brasil suporta mal a simplicidade extrema, mas na Europa e na Juve esse rapaz que vem do time de Pelé poderá ser decisivo”, imagina o comentarista. Como se vê, eles ainda têm uma imagem meio estereotipada dos brasileiros, embora um desses grandes simplificadores de jogadas, Kaká, tenha atuado tantos anos no Milan.

A gente gosta da simplicidade objetiva desses jogadores, sim. Ainda mais quando misturada a alguma fantasia. Como a de Robinho, por exemplo. Mas, na Itália, agora quem dá bola é Diego.

(Coluna Boleiros, 1/9/09)

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