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Ai dos vencidos

O futebol é um jogo de tudo ou nada. Palmeiras e Santos estiveram próximos da taça, e da classificação para a Libertadores. O vencedor leva todas glórias e lucros, enquanto resta ao vencido lamber as feridas e pensar em seus erros

Luiz Zanin Oricchio

04 de dezembro de 2015 | 18h27

 

Começo com um pouco de História.

Dizem que quando os gauleses invadiram e saquearam Roma, cobraram um pesado resgate em ouro para deixarem a cidade. Como os romanos duvidassem da lisura do processo de pesagem do resgate, o chefe celta – Breno – jogou sua pesada espada na balança como contrapeso, gravando ainda mais o preço a ser pago. Não satisfeito, disse a frase que entrou para a História e dá nome ao nosso texto: “Ai dos vencidos”. Quer dizer: os perdedores não têm direitos. Só obrigações.

Assim era na Antiguidade, assim é no futebol.

Vejam o caso de Palmeiras e Santos. O que adianta dizer que o Santos teve a possibilidade concreta de alcançar a Libertadores de 2016 tanto pelo Campeonato Brasileiro como pela Copa do Brasil? Não era ele o favorito no confronto com o Palmeiras, transformado, até a decisão, em patinho feio do futebol paulista?

Pois o Santos ficou sem nada. Hoje mesmo o presidente Modesto Roma Jr. anunciou que terá de vender jogadores. E que, sem jogar a Libertadores, com menos investimentos, será difícil segurar os boleiros mais cobiçados, em especial Lucas Lima e Marquinhos Gabriel.

Este é o final melancólico de um ano que começou muito mal, mas depois melhorou sem que ninguém esperasse. No início do ano, o Santos perdeu vários jogadores por falta de pagamento de salários ou direitos de imagem. Muita gente – inclusive este que vos escreve – apostou que lutaria contra o rebaixamento no Campeonato Brasileiro.

Não foi assim. O Santos surpreendeu e ganhou o Campeonato Paulista, vencendo o mesmo Palmeiras, e também na disputa de pênaltis (!). Depois de um início desolador no Brasileiro, aprumou-se e, segundo os estatísticos de sempre, chegou a figurar como favorito para conquistar a 4ª vaga para a Libertadores da América. Na Copa do Brasil também foi encorpando e eliminou rivais como o Corinthians (campeão brasileiro de 2016) e o São Paulo. Quando a tabela o colocou à frente de um então combalido Palmeiras, julgava-se que fosse atropelar.

Em pouco mais de quinze dias, o Santos jogou na lata de lixo todo o capital acumulado durante a recuperação.

Já o Palmeiras começou o ano com um festival pirotécnico de contratações. Chegou logo a uma final – a do Paulista – e perdeu. No Brasileiro teve desempenho bastante aquém do que se esperava. Enquanto descia, o Santos subia.

E foi assim que, um descendente e outro ascendente, se encontraram para disputar o troféu da Copa do Brasil. O que teria acontecido caso o encontro se desse entre um Palmeiras fragilizado e com jogadores importantes contundidos (Arouca, por exemplo), e um Santos inteiro e gastando a bola? Não se sabe. Ninguém sabe. Nem se saberá. É apenas especulação, mas diz o senso comum que é melhor aproveitar o momento bom, quando o adversário estiver mais debilitado. O confronto foi adiado. A pedido do Santos. Quando se realizou, a realidade já era outra. O Santos havia perdido o timing. E o Palmeiras, talvez recuperado o seu.

A história desse desfecho é a de dois jogos muito desiguais.  No primeiro, na Vila, o Palmeiras escapou de uma goleada. Mesmo palmeirenses de fina cepa napolitana o admitem. O Palestra foi lá para se defender. Empatar ou perder de pouco. Conseguiu, graças à incompetência do Santos, que teve várias oportunidades para abrir grande vantagem e saiu com apenas 1 a 0 a seu favor. Resultado magro, como também todo mundo percebeu. Não por acaso, a torcida do Palmeiras presente na Vila comemorou a derrota por pouco. Intuía que, no Allianz Parque, tudo seria muito diferente. Como de fato foi.

Tanto que aos 15’ (sim, quinze segundos!), Gabriel Jesus chegou na cara de Vanderlei e perdeu gol feito, sendo que fora o Santos a dar a saída. Para aquilatar o grau de desconcentração e apatia com que o time da Vila começou a partida decisiva. Depois houve momentos em que o Santos se aprumou um pouco e lembrou aquele futebol de bola no chão e troca de passes que é sua melhor característica. Mas esses momentos foram exceção e não regra. No todo, o Palmeiras sobrou na partida. Pressionou e engasgou o Santos em seu campo, sem que este conseguisse sair para os contra-ataques, sua arma letal. De modo que não foi surpresa quando o Palmeiras marcou um e depois o segundo gol, que lhe dariam a taça. Surpresa foi o gol de Ricardo Oliveira, que recolocou o Santos na disputa por pênaltis, quando todos já o consideravam batido, tamanha a apatia mostrada em campo.

Mas o que fazer com um time que entra na tal disputa por pênaltis e erra logo de cara as duas primeiras cobranças? Sendo que, na primeira, Marquinhos Gabriel, tido como um dos craques do time, escorrega e cai de bunda, chutando a bola muito por cima do travessão?

E de que adiante ruminar tudo isso? Em termos práticos, nada. O Palmeiras ganhou, o Santos perdeu. Foi justíssimo, porque no futebol sempre são justas e merecidas as vitórias que acontecem dentro da lei e sem intercorrência da arbitragem. O Palmeiras aguentou a pressão no primeiro jogo e contou com a incompetência do adversário. Usou sua casa para inverter o protagonismo da disputa. Quando alguns pensavam que o gol de empate (no placar agregado), tomado quando já estava com a mão na taça, o desestabilizaria, mostrou melhor preparo psicológico que o oponente. Jogos decisivos se ganham com a mente, com a alma e com a paixão. Nesses quesitos, o Palmeiras teve tudo aquilo que faltou ao Santos.

Ao vencedor, as batatas, como se diz no clássico Quincas Borba, de Machado de Assis. E ai dos vencidos, como dizia o nosso conhecido Breno, o celta.

Enquanto o Palmeiras acomoda a nova taça em sua sala de troféus e se prepara para a Libertadores, resta ao Santos apenas a tentativa de reduzir os danos, caso seja possível. E, se sobrar tempo, meditar sobre as infelizes decisões de adiar a disputa da Copa do Brasil e depois a de abandonar o Campeonato Brasileiro, para terminar o ano de mãos abanando.

De quem foram essas ideias, presidente?

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