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Ainda é possível?

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 13h57

Amigos são-paulinos me perguntam: dá para virar? Dá, respondo. E não digo
isso para confortá-los, tadinhos. É pura verdade: por que o São Paulo não
pode, digamos, fazer um mísero golzinho no tempo normal, igualar tudo, ir
para a prorrogação e nela ganhar, ou mesmo levar a decisão para os pênaltis?
É muito possível sim, embora todos saibam que é difícil, em especial se o
Inter jogar como na bela partida que fez no Morumbi. Assim, se o São Paulo
inverter a vantagem e ganhar seu quarto título de Libertadores amanhã, será
uma verdadeira façanha. Vale lembrar: façanhas acontecem.
Para quem como eu não tem nada a ver com a coisa, ou seja, não é nem
são-paulino nem colorado, e não está secando nenhum dos dois, sobra a
expectativa de um belo jogo de futebol amanhã à noite no Beira-Rio. Tão bom
quanto o do Morumbi, se não for pedir muito. Para quem, depois da Copa,
andava com fome de ver um futebol de homens, bem jogado e disputado com
vontade e brio, aquele jogo foi um verdadeiro banquete.
Mostrou não apenas que estão disputando o título sul-americano os dois
melhores times do Brasil, mas que, apesar de tudo, o futebol jogado por aqui
ainda pode ser belo e competitivo. Apesar de tudo, repito.
O que é bom no futebol é que nenhum jogo se resolve de véspera. Nada está
predeterminado, ou escrito nas estrelas, ao contrário do que andou
insinuando o próprio técnico Abel Braga um dia desses. Como não sou místico,
acho que a história se escreve mesmo é naqueles 90 minutos, ou 120, se for o
caso. E uma partida de futebol é tão complexa, tão cheia de variantes,
dependente da técnica, da tática e também da psicologia, mas igualmente do
acaso, do acidente, e da falta de lógica de certas coisas que acontecem e
põem a perder todo um planejamento, por minucioso que seja. Por isso, a
maneira mais fácil de quebrar a cara é fazer previsões em futebol, por
óbvias que possam parecer. A própria imprevisibilidade desse esporte, que em
tantos aspectos imita a vida, garante sobrevida e esperança ao São Paulo.
De qualquer forma, é óbvio que o Tricolor terá de sair para o jogo, em busca
do resultado, expondo-se mais. E o Inter, se tiver cabeça fria, poderá
esperar o momento certo para dar o bote e resolver a parada de vez. Mas
conseguirá ser tão racional, jogando diante da sua torcida? De uma torcida
que espera há tanto tempo um título como esse, que encerraria de vez uma das
gozações prediletas dos gremistas? É ver para crer. Querem um palpite? Não
dou. E não por medo de errar, pois erros são da vida e a esta altura do
campeonato já aprendi a conviver com eles. É que quem dá palpite vira
escravo dele. Ao invés de torcer por um time, ou aproveitar a beleza do
jogo, fica torcendo (ou torcendo-se) para ter razão. E fazer questão
absoluta de ter razão em tudo é uma das melhores maneiras de estragar a
surpresa e a imprevisibilidade da própria vida. Vamos então ver o que esse
jogo nos oferece, sem expectativas ou preconceitos. Quanto a mim, quero
apenas emoção e bom futebol. O resto é detalhe.
MEA CULPA? JAMAIS
Na entrevista ao jornal O Globo de domingo, Parreira abre alguma coisa dos
bastidores da derrota na Alemanha. Se não acrescenta muito, pelo menos
admite que mandarins do time se apresentaram obesos, que é difícil lidar com
gente mimada que chega à concentração de Porsche ou de jatinho, que faltou
motivação, etc. Ou seja, deu razão a todo mundo que criticou a seleção por
esse aspecto. Disse também que esta deveria ter treinado pelo menos um pouco
no Brasil para “sentir o clima da torcida”. Coisas assim. É por isso que no
Brasil nunca se resolve nada.
Sempre se buscam atenuantes e ninguém assume a responsabilidade por seus
atos. Falta radicalismo, ao contrário do que se pensa – e isso significa ir
à raiz das questões. O essencial vai para debaixo do tapete. Porque, se
houve erro de planejamento, como ele no fundo admite, quem bolou esse
planejamento?

15/8/2006

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