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As ironias do futebol

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h51

Amigos, a vida é uma ironia. Quis o destino que um antigo Menino da Vila estivesse no caminho do Santos Futebol Clube em sua tentativa de conquistar o terceiro mundial. Refiro-me, claro, a Nelsinho Baptista, capitão do time campeão paulista em 1978, no qual tinha como companheiros Juari, Pita, Nilton Batata e outros cobras. Naquele tempo, Nelsinho ostentava vasta cabeleira. Muitos anos depois, com a juba mais modesta, teve passagem medíocre pelo Santos, agora como treinador. Não deixou saudades. Estava no comando daquele time de 2005, goleado por 7 a 1 pelo Corinthians, placar que ainda incomoda os torcedores. Muito se falou, na época, que os jogadores haviam sofrido tamanha goleada para derrubar o técnico. Mas, como sabemos, essas coisas não acontecem no futebol.
Como treinador do Kashiwa Reysol, Nelsinho tentará botar água no chope santista. Já andou dizendo por aí que fará de tudo para evitar a final tida pela maioria como certa, entre Santos e Barcelona. Quer ele próprio enfrentar o time de Messi. Coisas da vida, minha nega, como dizia o grande Paulinho da Viola. Claro, o Santos tem um time muito melhor do que o Kashiwa, dirigido por Nelsinho, mas o Inter também era infinitamente superior ao Mazembe, ou alguém duvida disso?
De qualquer forma, faz bem Muricy em colocar as barbas de molho e concentrar-se bem nesse primeiro jogo. Humildade e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém, no futebol ou em qualquer outra atividade deste mundo povoado por seres mortais e falíveis. Teve a oportunidade de ver as fraquezas do Kashiwa, mas também seus méritos, como a velocidade e o preparo físico. Está certo o Muricy. Não adianta nada ficar pensando no Barcelona se, antes, existe esse desafio a ser transposto.
Mas o prudente Muricy também não se poupou de alguma polêmica no Japão, ao elogiar os técnicos do Barcelona e do Real Madrid, mas fazendo uma ressalva: de acordo com ele, Guardiola e Mourinho só poderiam ser considerados nota 10 mesmo depois de vencerem um campeonato no Brasil. Em sua coluna, Tostão considerou o comentário presunçoso. Não entendo dessa forma. Muricy não quis ser presunçoso, mas apenas chamar a atenção para a dificuldade do trabalho dos técnicos num país imediatista como o Brasil, que não dá tempo para planejamentos e costuma resolver qualquer tropeço pela demissão do treinador.
Além disso, o comentário de Muricy pertence àquela categoria interessante das coisas indemonstráveis. É tão provável Mourinho ou Guardiola virem treinar um clube brasileiro quanto Messi jogar no Corinthians ou no Palmeiras, no futuro imediato. E, no campo das possibilidades alucinadas, por que não pensar o que seria do Barcelona caso disputasse a Libertadores da América? Teria tanto sucesso quanto tem na Europa? Sem qualquer menosprezo, tanto pelo Barcelona quanto pela inteligência do leitor ou dos fãs alucinados do Barça, pode-se imaginar perfeitamente que passasse pela fase de grupos e depois se enrolasse no primeiro mata-mata, diante, digamos, da altitude e de um Once Caldas da vida. Quem poderia dizer que isso é impossível? Essa palavra, amigos, não existe no futebol.
De qualquer forma, amanhã, contra o Kashiwa, o Santos dá seu primeiro passo para reencontrar-se com seu melhor passado, com aqueles times inesquecíveis de 1962 e 1963, que foram bicampeões mundiais, ainda no velho (e ideal) esquema de melhor de três partidas entre o campeão europeu e o campeão sul-americano. Por que a Fifa antipatiza com essa fórmula simples? Pela política, digo eu, e porque não foi ela que a inventou.

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