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As lágrimas na hora da verdade

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h38

10/4/2007

O primeiro dever do cronista é não ser ingênuo. Assim, bem sei que Edmundo
tem proposta dos Estados Unidos e pode transformar a etapa final da sua
carreira em algo bem rentável. Nem por isso deixei de me emocionar com as
lágrimas que ele derramou no final do infeliz empate do Palmeiras com o
Guaratinguetá. Seja qual for seu rumo futuro, Edmundo deve ter sentido que
havia entrado para valer no último ato do seu destino de jogador, quando
deixará de ser atleta em atividade e passará para a chamada vida civil. Essa
vidinha de qualquer um de nós, seres comuns, com seus altos e baixos, como
filosofavam os ascensoristas.
Já a vida de jogador é uma verdadeira montanha-russa, sabemos todos. O
próprio Edmundo teve essa sensação de maneira pronunciada nos últimos
tempos. Muita gente questionou sua permanência no Palmeiras, dizendo que ele
não passava de um “ex-jogador em atividade”. Não era assim e Edmundo muitas
vezes carregou nas costas o fraco time do Palestra. Chegou a formar dupla
promissora com Valdívia e ambos saíram consagrados na vitória por 3 a 0
sobre o arqui-rival Corinthians. Na decisão contra o Ipatinga, Edmundo teve
a bola do jogo a seus pés naquele pênalti. Bateu para fora, como se sabe.
Todos concordamos que errar é humano, mas sabemos também que aquele pênalti
ele não poderia ter perdido. Algo ali se rompeu.
Então no domingo vimos a outra face do ídolo. O Edmundo frágil, talvez
pequeno diante do fim que pode não acontecer agora, mas se aproxima de
maneira inexorável. Nunca tive qualquer simpatia especial por ele. Nem
antipatia, diga-se. Sempre o achei um jogador instável, individualista –
como Romário também o é, e como são quase todos eles hoje em dia; aquele
tipo de cidadão preocupado apenas em se dar bem e querendo que os outros se
danem. Pois bem, desta vez ele tem toda a minha solidariedade. Sabemos como
é difícil o fim de carreira de um jogador. Na plenitude da idade, ele é um
velho para a sua profissão. Depois da fama, mergulhará no anonimato
progressivo e, em seguida, no esquecimento. Essa triste especificidade da
profissão de jogador está na origem do filme Boleiros, de Ugo Giorgetti,
marco quando o assunto é o futebol visto pelo cinema, e que empresta seu
título às nossas colunas no Estadão.
Aliás, o próprio Ugo é o “Boleiro” dos domingos e, neste último, escreveu um
texto particularmente brilhante sobre a altivez alviverde. E bem a
propósito, pois o Palmeiras vai precisar dela. No futebol não são apenas os
jogadores que vivem na montanha-russa, mas os próprio clubes. O exemplo da
hora é o Palmeiras. Há poucos dias parecia ter entrado numa espécie de
círculo virtuoso. Teve seu título mundial reconhecido pela Fifa
(inutilmente, segundo Giorgetti, para quem os palmeirenses, e apenas eles,
teriam autoridade moral para reconhecê-lo). Sob Caio Jr. o time vinha
encorpando a olhos vistos. Precisava reverter os 2 a 0 que sofrera em
Ipatinga, e conseguiu empatar no primeiro tempo. Ficou nisso, vieram os
pênaltis e o resto é história. Dependia das derrotas do Paulista e do
Bragantino e de uma vitória simples sobre o Guará no domingo para se
classificar nas semifinais do Paulistão. Os adversários perderam, mas o
Palmeiras negou fogo. Será que a sorte vai inverter seu sinal na
quarta-feira quando precisa ganhar do São Bento e secar o Bragantino que
joga contra o Barueri? Não é impossível. Só improvável. Resta a altivez, que
essa ninguém tira.

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