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As lições da história

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h15

28/11/2006
Um antigo filósofo dizia que a única lição da história é que não se aprende
nada com as lições da história. Acho a frase boa, às vezes acredito que seja
verdadeira, outras não. De qualquer forma, faz parte da natureza humana
tentar tirar ensinamentos da experiência passada mesmo que seja para cometer
os mesmos erros no futuro. No futebol não é diferente e sinto que, ao fim de
cada campeonato, nos sentimos tentados a refletir sobre aquilo que deu certo
e o que não deu com clubes, jogadores, torcidas, jornalistas – enfim todos
esses elementos de que se compõe o chamado mundo do futebol.
O problema são as generalizações. Como o São Paulo foi campeão, podemos
achar que estamos diante de um modelo único a ser seguido. Tudo bem, o São
Paulo é competente mesmo, mas será que é o único que está certo e apenas com
ele devemos aprender alguma coisa de útil? Nesse caso, o que deve fazer um
clube que não tenha o capital acumulado, um estádio do tamanho do Morumbi
(que é uma forma de capital) etc.? Deve desistir de ser competente? Ou pode
buscar a competência de outra forma?
Por que não olhar, por exemplo, para o trabalho feito pelo Paraná, sob o
comando do também competente Caio Júnior? Caio dirigiu um time infinitamente
mais barato que o do tricolor e está chegando nas primeiras posições de um
campeonato disputado como o Brasileiro de 2006. Duvido que o mérito seja
exclusivo do técnico – deve haver toda uma estrutura que concorre para o bom
desempenho dos jogadores em campo.
Outro exemplo que deve ser visto com carinho: o Grêmio, de Mano Menezes, que
chega em 3º lugar e entra na disputa direta da Libertadores. Outro time pelo
qual se dava pouco, egresso da Segunda Divisão, e se transformou numa das
forças deste campeonato.
Outro caso também vem do Sul: é o do Internacional, que manteve uma base do
ano anterior, venceu a Libertadores, desmanchou essa base em seguida, mas
soube se reconstruir para chegar em segundo no campeonato. Quando vejo esse
time jogar seu futebol fluente e ainda por cima revelar um possível talento
como Alexandre Pato, fico me perguntando se não falta um tantinho assim de
ambição a mais para que o Inter chegue ao topo do mundo. Em Tóquio ele nos
dará a resposta, mas convenhamos, com Rafael Sóbis e Tinga tudo seria mais
fácil.
Exemplos negativos também não faltam. Por exemplo, será que o sucateamento
dos dois times de Campinas não pode nos ensinar algo sobre o que não fazer
em termos de gestão esportiva?
Será que o Palmeiras, que escapou do descenso com as calças na mão e a
contribuição decisiva da Ponte Preta, que fez questão de cair, não poderia
tirar algumas lições deste ano de 2006? Será que a goleada humilhante que
levou do Inter neste domingo, dentro de casa, não será suficiente para
demonstrar, como se ainda fosse preciso, que sua estrutura administrativa
arcaica deve ser implodida sem mais demora?
Será que o Cruzeiro, uma das grandes decepções deste ano, entendeu que para
ser um grande clube não basta ser um entreposto de negociação de jogadores?
Será que o Corinthians que, com um time caro, flertou longo tempo com o
rebaixamento, terá aprendido que não vale a pena se meter em aventuras como
a da MSI para financiar sonhos de conquista? Talvez tenha aprendido, mas
quando vejo que o Flamengo, já classificado para a Libertadores, sonha
herdar a MSI e seus jogadores de ouro (ouro de tolo, talvez), fico pensando
que aquele velho filósofo, afinal, pode ter mesmo razão.

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