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Até quando a seleção vai atrapalhar?

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h47

O Santos Futebol Clube, em situação complicada na tabela, vai ficar sem Neymar para enfrentar o Grêmio e o Palmeiras. Por quê? Porque o rapaz vai servir à seleção brasileira nos amistosos contra Costa Rica e México. Outros jogadores desfalcarão seus times nesta fase de definição do Campeonato Brasileiro
Ninguém, em sã consciência, tira a razão de Mano Menezes quando ele diz que cada um tem seus problemas e ele tem os seus. Precisa preparar uma equipe para 2014 e tem de contar com os jogadores que julga os melhores. Neymar é peça-chave do seu hipotético time, assim como Ganso, quando se recuperar, Lucas e poucos outros que ainda atuam no futebol brasileiro. Nada a contestar quanto a isso.
Mas tudo a contestar quanto ao calendário, que não permite a paralisação do Campeonato Brasileiro a cada vez que a seleção desfalca os clubes. Com justiça, o técnico Dorival Jr., do Internacional de Porto Alegre, classificou de “estúpidos” os amistosos da seleção, pensando na sobrecarga ao seu jogador Oscar. Este, como Neymar, também suporta a sobrecarga de haver servido à seleção sub-20. É muita coisa, mesmo para jovens.
Afinal, se a seleção, ou as seleções, são importantes, muito mais o são os clubes. São eles que, contra toda a lógica econômica, têm conseguido manter no Brasil jogadores cobiçados na Europa. São eles que pagam os salários exorbitantes, completamente irreais dentro das condições nacionais; são eles que montam complicadas engenharias financeiras para satisfazer ao craque, ao pai do craque, ao empresário e aos proprietários das várias fatias em que o boleiro se divide, com os “parceiros” e investidores sócios nos direitos econômicos do astro. Todos ávidos de lucro imediato e de maneira alguma preocupados com essa fantasia a que chamamos “qualidade do futebol brasileiro”.
Ora, a tal da qualidade do futebol brasileiro não é mesmo assunto dessa gente. O negócio deles é grana, ponto final e não se fala mais nisso. Qualidade é assunto nosso, da torcida, dos cronistas, dos apreciadores, enfim, de todos aqueles que visam apenas a um lucro com o futebol – o prazer de vê-lo bem jogado.
Se o mundo fosse justo, deveria ser também uma preocupação da CBF, sigla que designa uma confederação de futebol, e que deveria zelar não apenas pela seleção, mas pelo nível do jogo praticado no País. Isso em todos as instâncias, suponho: da melhoria de qualidade dos gramados e da arbitragem, até o estímulo à permanência de jovens talentosos no País. Melhorando o jogo melhoraria tudo para todo mundo – até mesmo para aqueles que veem no futebol unicamente um ótimo investimento. Talvez demorassem um pouco mais para lucrar, mas, no final das contas, lucrariam mais. Interessaria também à TV que, com melhores espetáculos, teria mais facilidade para vendê-los no próprio país e no exterior.
Ora, não é penalizando os clubes que se estimula a melhoria do futebol no Brasil. Afinal, são os clubes que revelam talentos, são eles que funcionam como vitrine, a partir da qual esses talentos são expostos , conhecidos e reconhecidos, inclusive no exterior. São os clubes que mantêm, no dia-a-dia, viva a paixão brasileira pelo futebol – que, afinal, é o fundamento real de tudo. Fundamento, inclusive, dos lucros extraordinários de que todos, salvo os torcedores, usufruem.
Não há nenhuma possibilidade de se contemplar as exigências da seleção sem prejudicar os clubes senão alterar profundamente o calendário do futebol brasileiro. Sei que isso é polêmico, que implicaria, talvez, enxugar os campeonatos estaduais, ou mesmo mudar as datas de início e fim do Campeonato Brasileiro. Talvez mexer com datas da Libertadores e da Sul-Americana, o que exigiria negociações com a Comenbol. Enfim, são problemas a serem debatidos e não ignorados e jogados para debaixo do tapete, como têm sido até agora.

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