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Até tu, Maradona?

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 22h24

Chama a atenção o destaque dos jornais italianos para o jogo Argentina x Brasil em Rosário. Antes da partida, páginas inteiras de análises e comentários variados. Depois da vitória da seleção por 3 a 1, mais papel e tinta empregados nos desdobramentos do jogo.

Não é difícil entender tanto interesse, no entanto. A Itália é um país de futebol. Aqui as pessoas amam o jogo, tanto ou mais do que no Brasil e na Argentina. “Calcio” é assunto corrente nos bares e nas ruas, e as mesas-redondas são programas tão obrigatórios nas noites de domingo italianas quanto nas brasileiras.

Presumo que por aqui já geraram tantas crises conjugais como no Brasil, pois não me parece que as mulheres italianas, nesse particular, sejam muito diferentes das brasileiras. Em todas as latitudes elas já aprenderam a amar o futebol, mas ainda não descobriram os encantos das mesas-redondas. Virá com o tempo, está vindo, mas esta é outra história.

Além do interesse natural pelo futebol, e pelo reconhecimento de que Brasil x Argentina é um clássico mundial (para mim, o maior de todos), há outro poderoso elemento em jogo – Diego Armando Maradona. Desde que jogou de maneira fabulosa pelo Napoli, Diego tornou-se figura nacional na Itália. Já conversei com amigos da bela terra de Nápoles e seu fanatismo pelo Pibe de Oro talvez só seja suplantado pelo dos próprios argentinos, que chegaram a fundar uma certa Igreja Maradoniana.

Os hispânicos e os latinos de modo geral têm relação de reverência para com seus ídolos. Nós, que somos uma mistura esquisita de culturas, os olhamos com certa desconfiança. A não ser quando morrem, e de preferência mal, como foi o caso de Garrincha. Então viram santos. Caso contrário, nos sentimos até constrangidos em admirá-los, como se isso nos custasse esforço.

Fosse Pelé argentino, ou italiano, teria uma estátua em cada cidade. Como é brasileiro, às vezes vai ao seu camarote na Vila Belmiro e o locutor do estádio nem sequer se dá ao trabalho de anunciar sua presença. Como se Pelé estivesse fazendo não mais que a obrigação em prestigiar um jogo do Santos Futebol Clube, e desse Santos que aí está, ainda por cima.

Com Maradona é diferente. Esperam-se dele coisas geniais e truques de mágica em troca do louvor que lhe devotam. Mas, dada a situação da Argentina nas Eliminatórias para o Mundial, até do Pibe já se começa a desconfiar. Um dos jornais (o Gazzettino di Venezia), depois de colocar Maradona na condição de um dos grandes gênios da bola de todos os tempos, fala de sua “escassa familiaridade com o lado mais racional do jogo”. Pode ser por aí, não? A incompatibilidade do artista com o ramerrão do dia a dia, com a necessidade de ganhar o pão com esforço. A fantasia que não toma conhecimento dos dados da realidade e não planeja, não poupa ou leva em conta o lado contrário.

Talvez falte a Maradona o que sobra a Dunga, seu antípoda como jogador: uma compreensão maior da rotina do jogo. Dominada a rotina, ou seja, a parte tática, o talento pode aparecer. Raramente se dá o contrário.

(Coluna Boleiros, 8/9/09)

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