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Até tu, Maradona?

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h48

Chama a atenção o destaque dos jornais italianos para o jogo Argentina x Brasil em Rosário. Antes da partida, páginas inteiras de análises e comentários variados. Depois da vitória da seleção por 3 a 1, mais papel e tinta empregados nos desdobramentos do jogo.

Não é difícil entender tanto interesse, no entanto. A Itália é um país de futebol. Aqui as pessoas amam o jogo, tanto ou mais que no Brasil e Argentina. “Calcio” é assunto corrente nos bares e ruas, e as mesas-redondas são tão programas tão obrigatórios nas noites de domingo italianas quanto são nas brasileiras. Presumo que por aqui já geraram tantas crises conjugais como no Brasil, pois não me parece que as mulheres italianas, nesse particular, sejam muito diferentes das brasileiras. Em todas as latitudes elas já aprenderam a amar o futebol, mas ainda não descobriram os encantos das mesas-redondas. Virá com o tempo, mas esta é outra história.

Mas, além do interesse pelo futebol, e pelo reconhecimento que Brasil x Argentina é um clássico mundial (para mim, o maior de todos), há outro poderoso elemento em jogo – Diego Armando Maradona. Desde que jogou de maneira fabulosa pelo Napoli, Diego tornou-se figura nacional na Itália. Já conversei com amigos da bela terra de Nápoles e seu fanatismo pelo Pibe de Oro talvez só seja suplantado pelo dos próprios argentinos, que chegaram a fundar uma certa Igreja Maradoniana.

Os hispânicos e os latinos de modo geral tem relação de reverência para com seus ídolos. Nós, que somos uma mistura esquisita de culturas, os olhamos com desconfiança. A não ser quando morrem, e de preferência mal, como foi o caso de Garrincha. Então viram santos. Caso contrário, nos sentimos até constrangidos em admirá-los, como se isso nos custasse um certo esforço. Fosse Pelé argentino, ou italiano, teria uma estátua em cada cidade. Como é brasileiro…Às vezes vai ao seu camarote na Vila Belmiro e o locutor do estádio sequer se dá ao trabalho de registrar sua presença. Como se Pelé estivesse fazendo não mais que a obrigação em prestigiar um jogo do Santos, e desse Santos que aí está, ainda por cima.

Com Maradona é diferente. Espera-se dele coisas geniais, truques de mágica, em troca do louvor que lhe devotam. Mas, dada a situação da Argentina nas classificatórias para o Mundial, até do pibe já se começa a desconfiar. Um dos jornais (o Gazzettino di Venezia), depois de colocar Maradona na condição de um dos grandes gênios da bola de todos os tempos, fala de sua “escassa familiaridade com o lado mais racional do jogo”. Pode ser por aí, não? A incompatilidade do artista com o ramerrão do dia a dia, com a necessidade de ganhar o pão com esforço. A fantasia que não leva em conta os dados da realidade, e não planeja, não poupa ou leva em conta o lado contrário. Talvez falte a Maradona o que sobra a Dunga, seu antípoda como jogador: uma compreensão maior da rotina do jogo. Dominada a rotina, ou seja, a tática, o talento pode aparecer. Raramente se dá o contrário.

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