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Barcelona, um novo modelo para o futebol?

Luiz Zanin Oricchio

30 de dezembro de 2011 | 00h13

Eu também fiquei contente com a vitória do Barcelona sobre o Manchester United pela Copa dos Campeões. A título introdutório, repito tudo que meus colegas disseram e continuam a dizer por aí: foi mesmo a vitória do bom futebol, numa partida acachapante, com domínio de um sobre o outro como poucas vezes se vê em encontro de gigantes; jogo limpo, de poucas faltas, em que brilharam a genialidade de alguns (Messi em particular) e prevaleceu o conjunto sobre as individualidades magníficas. Foi uma partida que marcou o predomínio de um estilo de jogo sobre o outro, vitória de uma filosofia que une beleza e eficácia numa liga formidável.

Tudo isso é verdadeiro. Verdade insofismável, como o próprio Alex Ferguson, venerando técnico do Manchester, admitiu após a derrota. Para o meu gosto pessoal, fica na lembrança uma característica do jogo do Barcelona, que muito me agrada: a sua absoluta clareza. É um jogo límpido, sem chutões ao acaso, no qual raramente você vê um jogador enroscando-se com a bola sem saber o que fazer com ela. Não. Ela segue de pé em pé, amorosamente e com o rigor que poderia ser visto em uma hipotética mesa de sinuca presidida por reis do taco como Carne Frita Rui Chapéu. O Barcelona coloca em prática um lindo balé de passes que vai envolvendo e minando o adversário até hipnotizá-lo e levá-lo à exaustão. E, então, ele ataca e pica, com a desenvoltura de um Muhammad Ali em seus áureos tempos. Impávido e tranquilo como Bruce Lee. O Barça derrotou o Manchester como se desenvolvesse um teorema: “Eis aqui, assistam e aplaudam: isto é o futebol, em sua essência. Como queríamos demonstrar.”

Gastos os adjetivos, e sem querer dar uma de estraga-prazeres, ficam cá com meus botões algumas ruminações. A primeira a me acudir, incômoda: estaremos diante de um paradigma do futebol, um modelo absoluto ao qual devemos não apenas a justa admiração, mas o tributo da cópia? Se quisermos ser grandes devemos imitar o Barça?

Tenho cá sérias dúvidas. Quer dizer que a antiga escola do futebol brasileiro, aquela mesma que nos deu cinco títulos mundiais, que já foi idolatrada, cantada em verso e prosa, será que não existe mais? Extinguiu-se? Não serve mais de parâmetro? Nós, que amamos o futebol bem jogado, temos de ir à Catalunha e ver como eles fazem?

Coloco essas perguntas com a maior humildade, sem ter respostas. É possível que a grande escola brasileira, aquela de Friedenreich e Domingos da Guia, de Leônidas e Ademir de Menezes, de Pelé e Garrincha, de Julio Botelho e Ademir da Guia, de Zico e Falcão, de Ronaldo, Romário e Ronaldinho Gaúcho, de Neymar e Ganso, esteja extinta e não sirva de referência a ninguém? Pode ser.

Em outras palavras, será que o eixo do futebol se deslocou? Minado pela desigualdade econômica, será que o futebol sul-americano, representado por suas duas maiores escolas, a argentina e a brasileira, já não tem mais nada a dizer no cenário mundial?

Antes, o Mundial Interclubes, a chamada Copa Intercontinental, tinha um caráter de tira-teima entre europeus e sul-americanos. Cada qual com seu estilo, os dois continentes disputavam a primazia planetária com seus clubes, assim como o faziam, de quatro em quatro anos, com suas seleções. Agora, parece que esse maravilhoso conflito simbólico entre o Velho e Novo Mundo terminou, assim como acabou a Guerra Fria. A julgar pelo que dizem nossos comentaristas, o Barcelona não irá ao Mundial Interclubes no final do ano para disputar um torneio com seus rivais, já que não os tem. Vai para cumprir tabela, passear, ser reconhecido e coroado pelo que já é, o maioral, aquele que não tem adversários. A bem dizer, nem precisa jogar.

Uma coisa é certa: a batalha da mídia, essa o Barça já ganhou.

Boleiros, 31/5/2011

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