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Belluzzo e as imagens

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 22h34

26/11/2009

O escândalo do dia é o vídeo em que o presidente do Palmeiras, Luiz Gonzaga Belluzzo, aparece, em festa da torcida organizada Mancha Verde, pedindo “morte aos bambi (sic)!”. Veja aqui. “Bambi”, para quem não sabe, é o apelido depreciativo dos são-paulinos, criado, consta, pelo jogador Vampeta.

Pois bem, as declarações do presidente geraram uma onda de críticas que falam da perda da liturgia do cargo até a incitação à violência.

Há uma coisa interessante aí, e que deveria ser melhor analisada. Hoje em dia, qualquer um de nós carrega consigo um pequeno dispositivo de filmagem. O celular é uma espécie de caderno de anotações audiovisual, ao alcance de todos e de qualquer bolso. Somos todos testemunhas audiovisuais da História. Para o bem e para o mal.

Resultado: não existe mais essa coisa chamada privacidade. Antes, se o camarada tomava uns tragos a mais no happy hour, subia na mesa para cantar e paquerava a colega de trabalho, o máximo que tinha de aguentar era o constrangimento do dia seguinte. Hoje, corre o risco de ver sua imagem reproduzida no YouTube, para alegria geral dos desafetos, que talvez mandem um link do vídeo para o chefe do coitado, ou para sua mulher. Ou para ambos.

Se isso acontece com anônimos, o que se dirá das celebridades, das pessoas conhecidas? Essas não têm mesmo mais vida particular. Todas as suas declarações e todo o seu comportamento serão do domínio público. Da modelo que resolve transar no mar com o namorado ao presidente de clube que se põe a falar como torcedor – todos estão sujeitos a se verem expostos em público, julgados e condenados, bem de acordo com o neomoralismo que é típico da nossa época.

Seria interessante, também, especular sobre a rigidez moral que, para mim, parece ser uma decorrência lógica desse mundo das imagens. Mas isso eu deixo para outra ocasião.

O que interessa, por ora, é que o caso Belluzzo deveria servir de reflexão sobre um assunto que, para mim, é fundamental: as pessoas, conhecidas ou desconhecidas, têm ou não direito a uma vida privada? Ou tudo se tornou público, para o deleite continuado da nossa sociedade do espetáculo?

Sim, porque não se iludam: a condenação moral é uma forma sutil de prazer.

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