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Bem-vindos ao mundo real *

Luiz Zanin Oricchio

06 de janeiro de 2015 | 17h03

Amigos, vocês sabem que o noticiário do começo do ano é meio pobre. Enquanto a Copinha não engrena (também, com 104 times…), o jeito é acompanhar a movimentação dos clubes, que nesta época, tradicionalmente, saem atrás de reforços. Bem, como vocês sabem, esse termo é um clichê, pois raros são os jogadores contratados que de fato “reforçam” o clube ao qual chegam. No mais das vezes, limitam-se a “compor o grupo”, como se diz no jargão da bola. Mas, entre eles, às vezes há aqueles nomes sonhados, que arrancam suspiros da torcida, craques que, por sua simples presença, podem transformar a vocação de um time e torná-lo vencedor.Mas, neste ano, vejo que o noticiário se concentra no contrário, na quase ausência de negócios nos clubes. Todos eles, de tanga e pires na mão, retraem-se. Estão mais a fim de vender do que de comprar. Tentam enxugar custos, ao invés de abrir os cofres em busca de contratações bombásticas. Desfazem-se de jogadores mais dispendiosos, como fez o Santos com Leandro Damião, despachando-o para o Cruzeiro. O companheiro santista dirá que o reforço do ano foi este, livrar-se de Damião, que de fato não deu certo no Peixe, mas pode reencontrar seu futebol em outra parte. E talvez o faça num time entrosado como o Cruzeiro. E então será a vez de o santista morrer de raiva.

Mas o que tem me assustado é o tom das reportagens deste fim de 2014 e início de 2015. De acordo com elas, o tempo das grandes aquisições acabou. Não se espere nada de parecido com a contração de Pato pelo Corinthians ou de Ganso pelo São Paulo. Começou o tempo das vacas magras. Assusta porque, pela minha percepção, esse tempo bíblico do miserê já havia começado para o futebol brasileiro havia muito tempo. Pelo menos há uns 20 anos. Engano do inocente. Vivíamos na abundância e não sabíamos. O pior vem agora. Se, mesmo fazendo loucuras econômicas, o futebol brasileiro já não conseguia reter seus craques, o que será dele sob realismo econômico? Tremo ao pensar.

Ao mesmo tempo, esse cinto apertado pode trazer benefícios. Se os números de fato têm razão (e é muito difícil discutir com cifras), o futebol brasileiro tem vivido acima dos seus meios ao longo dos últimos anos. Talvez sempre tenha vivido acima de suas posses desde que o futebol inflacionou-se de forma delirante pelo mundo. O futebol virou um mundo da fantasia e os torcedores, com sua exigência por craques a qualquer preço (literalmente), têm sua parcela de culpa na situação. Nunca se vai ouvir da torcida um apelo ao bom senso. O torcedor quer ver o time jogando bem, conquistando títulos e derrotando rivais. É isso. O resto não importa. De modo que existe uma pressão violenta para que se cometam loucuras. Qualquer loucura. Eu sempre me surpreendi com jogador meia-boca ganhando mais do que presidente de multinacional. Com técnicos recebendo salários pirotécnicos, sem falar na elite de craques, porque para esta o céu é mesmo o limite. Alguém tem de pagar por isso, mas como os clubes, pelo menos no Brasil, não geram receitas para tanto, o futebol virou ilha da fantasia. Faz de conta. Um mundo mágico.

Pois bem, o que parece pintar agora é uma dose tão brutal como necessária de realismo, com os clubes acordando para os fatos e prometendo gastar apenas o que arrecadam. Será interessante observar o que poderemos fazer com nossos próprios recursos, sem pagar salários e direitos de imagem exorbitantes e adequando as expectativas dos profissionais aos recursos do país onde trabalham. Quantos abaixarão suas pretensões e toparão jogar em novas bases? Ou será que preferem atuar em centros menos badalados e ganhar mais, mesmo que por períodos limitados, como fez o Conca, por exemplo? De qualquer forma, acho que viver um pouco no mundo real pode até fazer bem para o futebol brasileiro. Desde que todos os clubes façam a mesma coisa.

 * Publicado na versão impressa do Estadão

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