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Bons e maus enredos

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 13h54

Estranho e interessante este Campeonato de 2006. Este mesmo que tem na zona
de rebaixamento o atual campeão brasileiro e o vencedor da Copa do Brasil.
Este mesmo que traz redivivo um Palmeiras que já se julgava jogado às
traças. Este mesmo que apresenta uma (até agora) sólida coerência na ponta
da tabela, ocupada pelos melhores do País, São Paulo, Internacional,
Cruzeiro e Fluminense.
Mas lá continuarão? Será o São Paulo tão inexpugnável quanto se supõe? O bom
e diversificado elenco do Inter será suficiente para mantê-lo em cima?
Cruzeiro e Fluminense, tão bem montados, não mostram também certa
irregularidade? Mas quem poderá ameaçar esse quarteto? O Santos, que enfiou
quatro no Expressinho do São Paulo, placar com o qual nem o mais fanático
torcedor peixeiro poderia sonhar? O Paraná, time valente e estruturado, como
mostrou mesmo perdendo no sábado no Parque Antártica? Ou o Vasco, que provou
ter assimilado a derrota contra o rival Flamengo?
O fato é que o campeonato parece bastante empolgante nesta retomada. Tem
seus protagonistas, mas nenhum deles é um super-herói. Tem aqueles
personagens que começam pequenos e podem crescer no meio da trama, como
Santos, Paraná, talvez Vasco. Tem outros capazes de recuperações épicas,
como o Palmeiras e o Santa Cruz. E tem seus candidatos aos papéis trágicos,
como o Flamengo e, mais do que todos, o Corinthians. No que vai dar essa
história toda? É a pergunta que fazemos ao entrar em um teatro para assistir
a uma peça ou num cinema para ver um filme. No futebol não é diferente.
INÍCIO DA ERA DUNGA
Como interpretar os nomes que serão conhecidos hoje? Como pistas seguras
para o caminho da renovação? Nada mais falso, porque Dunga já avisou que não
irá chamar as estrelas européias, não porque elas afinaram na Copa mas
porque estão voltando aos seus clubes para o início da temporada e precisam
ser poupadas. Assim, Dunga terá de se virar com o produto nacional mesmo,
este que vemos no Campeonato Brasileiro e, ainda por cima, sem São Paulo e
Internacional, que estão na Libertadores. Pode incluir jogadores do Leste
Europeu e aí sim talvez haja novidade.
Mas, enfim, tudo isso é fumaça porque esse jogo com a Noruega não passa de
mais um caça-níqueis acertado com o patrocinador. Esse tipo de compromisso
limita demais o trabalho técnico e faz parte de um enredo cujo desfecho
assistimos na Alemanha. Nada indica que algo irá mudar para valer, porque os
patrões do jogo continuam os mesmos. Por isso, essa era Dunga tem toda a
pinta de ser cosmética e não a revolução radical exigida depois do fiasco.
Dunga só tem falado em vibração e raça, porque foi o que faltou na Copa. Ele
mesmo disse que só com esses ingredientes emocionais não se faz um time
vencedor (sem eles também não se faz). É preciso técnica, sabemos todos. Mas
não vi ninguém perguntar a ele se tem uma idéia de jogo definida, se
formulou alguma proposta tática para montar o time e se está disposto a
discuti-la com os mortais, que somos nós. Há um silêncio constrangedor em
torno desse ponto.
Não é só isso. Depois da sua mais vergonhosa participação em uma Copa do
Mundo, o Brasil poderia aproveitar o trauma e dar uma parada para se
repensar, da cabeça aos sapatos, como dizia Nelson Rodrigues. A vida nos dá
esse tipo de oportunidade quando chegamos ao abismo e o contemplamos. E qual
é o xis da questão? Simples: falta projeto ao futebol brasileiro, quer dizer
ao futebol jogado aqui, na nossa terra. Seria preciso rediscuti-lo, do
calendário à legislação, examinar suas fragilidades, propor medidas para
aperfeiçoá-lo, de modo que a seleção fosse conseqüência da sua força e não
um ser alienígena e lucrativo, explorado por uma entidade que paira acima de
todos e não dá satisfações a ninguém. Não me iludo: para chegarmos a isso
teria de tombar aquela Bastilha situada na Barra da Tijuca. Para que
voltasse ao povo o que do povo deveria ser – a sua seleção.

1/8/2006

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