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Brado a capela *

Luiz Zanin Oricchio

23 de junho de 2013 | 22h47

(O jogo, o hino e o povo)

A bela vitória de 2 a 0 do Brasil sobre o México na Copa das Confederações pode vir a ser lembrada, no futuro, como um acontecimento em que o futebol foi além de si mesmo.

Do lado de fora do Castelão, em Fortaleza, havia uma grande manifestação popular que, como todas as manifestações recentes, atirava contra várias frentes – transporte caro e ruim, corrupção, saúde precária, obras faraônicas para a Copa financiadas com dinheiro público.

Dentro do estádio, um público, já energizado pela manifestação, portava cartazes esclarecendo que o protesto não era contra a seleção. Era contra…uma série de coisas. Contra “tudo o que está aí”, como se dizia em outra época.

Nesse clima, um ato emocionante. A torcida continuou a cantar, a capela, o Hino Nacional encurtado pela Fifa por razões de tempo. No clima patriótico que ali se formava, não se tolerava resumos. O Hino tinha de ser entoado na íntegra, em sua quilométrica letra. E assim aconteceu, emocionando até os mais experientes e empedernidos jornalistas lá presentes.

Dentro de campo, talvez contaminada pelo clima ambiente, a seleção jogou os seus melhores 20 minutos desde que foi formada por Luis Felipe Scolari. Jogou “à brasileira”, com fome de ataque, acuando o adversário, envolvendo-o em passes sutis e rápidos, dribles e deslocamentos. A síntese dessa postura ofensiva foi o gol de Neymar, uma bola espirrada que caiu em seu pé esquerdo (estava em ótima posição) e, de sem-pulo, foi direta para a rede mexicana. Lindo gol. Assim como foi excepcional a jogada do mesmo Neymar no segundo e último gol do jogo, passando entre dois defensores mexicanos como se fosse uma sombra e passando, com açúcar e afeto, para Jô completar. Uma jogada perfeita, joia sem jaça do futebol-arte.

Houve naquela tarde de quarta-feira comunhão entre a seleção e a torcida, coisa que, da forma como se deu, não se produzia havia muito tempo.

Um dos temores da CBF era o crescente distanciamento entre time e torcida, que só vinha aumentando nos últimos anos e por culpa principal da própria entidade. Por razões de mercado, a seleção jogava nos quatro cantos do mundo menos em seu país. Os mais cínicos diziam que a seleção jogava “em casa” quanto atuava no londrino Emirates Stadium, um dos seus palcos favoritos. Uma postura muitas elitista, arrogante e distante dos jogadores atuando na Europa contribuiu para a sensação de que a seleção, um dos símbolos nacionais, fosse vista pelos torcedores como algo que se tornara estranho a nós.

Pois bem, talvez como subproduto de manifestações que resgataram a rua para os cidadãos, a seleção, como símbolo, também foi recuperada, da mesma forma que o Hino Nacional e as bandeiras verde-amarelas. O nacionalismo, até pouco ironizado pelos bem pensantes de terno e gravata, tornou-se de novo permissível, e quase obrigatório. De repente, uma nação, periodicamente atacada pela síndrome descrita por Nelson Rodrigues como “complexo de vira-latas”,  descobre-se orgulhosa de si mesma.

Algumas pessoas ligadas ao futebol tiveram a percepção exata do momento. Outras não o compreenderam direito. Joseph Blatter, Jerôme Valcke, José Maria Marin, Aldo Rebelo, Ronaldo parecem preocupados demais com o prejuízo que essa ligação entre futebol e manifestações populares possa trazer à boa organização dos jogos. Bobagem. O futebol tem laços estreitos com a política, para o bem e para o mal. Na Copa de 1938, Mussolini ameaçava os jogadores italianos com a ordem de “Vincere o Morire” (Vencer ou Morrer). Na Copa de 1970, os militares brasileiros tentaram instrumentalizar a vitória no México. Mas a própria excelência da seleção ia além das intenções dos ditadores e fornecia ao povo uma visão lúdica de coesão e criatividade, e era motivo de orgulho. A seleção de Pelé, Tostão, Jairzinho, Clodoaldo, Carlos Alberto Torres, Gérson e Rivellino era do povo e não dos milicos. Isso ficou claro quando militantes de esquerda desobedeceram a ordens dos seus comandos de “torcer contra a seleção para não dar armas ao inimigo”. Ninguém resistia à seleção, ela era coisa nossa.

Diferentemente de cartolas, políticos e ex-jogadores acomodados ao establishment, Neymar, astro do jogo e, possivelmente, o grande ídolo para a Copa de 2014, postou texto muito interessante numa rede social: “…Sempre tive fé que não seria necessário chegarmos ao ponto de ir para as ruas para exigir melhores condições de transporte, saúde, educação e segurança, isso tudo é OBRIGAÇÃO do governo…A partir deste jogo, contra o México, entro em campo inspirado por essa mobilização…#Tamojunto” .

Enfim, são coisas díspares e ainda estamos tateando um conceito unificador que nos permita assimilá-las. Protestos contra aumento de tarifas que se transformam em manifestações generalizadas a propósito de tudo o que nos incomoda, da falta de seriedade com o dinheiro público à vida intolerável nas metrópoles. Numa óbvia crise da representação do poder político, o povo, ou parte dele, foi à rua e resolveu falar por conta própria. O que se chama de “falta de foco” das manifestações talvez exprima, pelo contrário, sua abrangência. O repúdio às bandeiras partidárias aponta para uma indefinição ideológica que talvez seja natural em nosso mundo fragmentado. Quis o acaso – ou talvez não se deva usar o termo – que houvesse no Brasil, na mesma época das grandes manifestações, um torneio internacional que multiplicasse sua visibilidade.

Nesse movimento de reapropriação do ser nacional (e talvez seja esse o conceito unificador), nada mais natural que a seleção brasileira fosse tomada de volta como símbolo do País. É bom sinal que tenha respondido em campo a esse chamado.

* Publicado originalmente no Caderno Aliás do Estadão

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