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Campeão, na corda bamba do impossível

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 23h50

Na última coluna do ano, é praxe cumprimentar o campeão. Pois então: parabéns, Fluminense, campeão brasileiro de 2010, com honra e mérito. E não é que ouço muita gente se perguntando se o Flu era, de fato, o melhor time de 2010? Muitos acham que não: o Santos teria mais brilho, pelo menos durante algum tempo; o Inter dispõe de elenco melhor, o Corinthians seria mais sólido, o Cruzeiro jogaria mais bonito.

No campo das opiniões, tudo isso pode ser verdade. O Flu ganha o título de 2010 sem apresentar um futebol de sonho, quem há de negar? Mas a verdade é o Fluminense, mesmo sem encantar, foi o time mais regular do campeonato. Liderou durante 23 das 38 rodadas, número que fala por si. E, mesmo na reta final, conseguiu superar o visível nervosismo e fazer os pontos de que necessitava. Minha tese é a seguinte: no sistema de pontos corridos o campeão é sempre justo e legítimo, a não ser que haja uma lambança de arbitragem daquelas de arrepiar, uma roubalheira de antologia, de entrar para a História, como a que aconteceu há poucos anos. Fora isso, não existe nada que tire o mérito do campeão.

Campeão atípico porque se a matemática esportiva fosse coisa séria, o Fluminense deveria ter disputado a Segunda Divisão em 2010 e não a Primeira. Com dez rodadas para terminar o campeonato de 2009, sua possibilidade de queda era de 99%. E não é que, contra toda a estatística, o Flu, com Fred em estado de graça, foi enfileirando vitória sobre vitória, até escapar e desmoralizar a matemática?

Livrou-se do descenso para, no ano seguinte, tornar-se campeão. Não sei se no mundo existe façanha semelhante. Eu não conheço. Mas posso imaginar o que sobre essa aventura na corda bamba da impossibilidade escreveria o mais ilustre dos torcedores do tricolor carioca, o grande Nelson Rodrigues. Teceria um épico que, segundo ele, estaria já inscrito nas tábuas da lei dois mil anos antes do Gênesis.

No mundo mais terreno, outros detalhes chamaram a atenção nesta conquista do Fluminense. Uma delas, a presença de Conca, o mais confiável dos jogadores e o melhor do ano no Brasil. Um meia daqueles autênticos, capazes de encontrar os atalhos do campo e por eles fazer a bola fluir até os pés dos artilheiros. Ele próprio andou marcando gols, quando foi preciso. Ainda dizem que não define nas partidas difíceis. Mas e a regularidade, e a média alta de desempenho, não contam nada? É o craque do ano, mesmo comparado a outro argentino, Montillo, do Cruzeiro, e ao futebol vistoso de Neymar, no Santos.

Outra coisa me surpreendeu. Enquanto todos comemoravam o título, Muricy dizia que era preciso melhorar muita coisa no Fluminense; que o time desse jeito não iria longe na Libertadores e era preciso investir mais na estrutura do clube. Muricy não relaxa. Não sei se algum de vocês já teve um chefe com essa personalidade. Pode ser bem incômodo. Mas alguém com esse perfil consegue tirar o melhor de cada um e fazer a equipe funcionar em sintonia. Exigente, impõe-se pelo exemplo, pela disciplina e pelo senso de justiça. Como, além de todas essas qualidades, Muricy distinguiu-se pela honra à palavra empenhada, recusando o cargo de técnico da CBF ao não ser liberado pelo Fluminense, para mim fica sendo uma das grandes figuras esportivas do ano. Numa época de vale-tudo generalizado, Muricy mostrou que é possível dar-se bem na vida e respeitar a ética ao mesmo tempo. Não é exemplo para ser ignorado.

Férias

A bola parou e eu também. Dou um respiro de férias aos leitores, mas já marco o reencontro para 11 de janeiro de 2011, véspera do Campeonato Paulista, quando esta coluna volta à ativa. Boas festas e ótimo ano novo a todos. Até mais.

Boleiros, 7/12/2010

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