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Carpe Diem

Luiz Zanin Oricchio

01 de setembro de 2015 | 14h01

 

A boa notícia (ando atrás delas) é que a janela de transferências para a Europa fechou e os dois Gabriel, o do Santos e o do Palmeiras, ficaram no País.

Ora, dirá você, é questão de tempo. Mais cedo ou mais tarde, irão. Sei disso, caro irmão. Mas também sei que tempo é tudo o que temos (talvez seja uma das poucas sabedorias da maturidade). De modo que, se ficarem mais seis meses, um ano, melhor para nós. Melhor desfrutar desse acréscimo que ficar lamentando a futura perda.

Carpe Diem, diziam os latinos. Aproveite o dia, porque amanhã…ninguém sabe. Nem se estaremos aqui.

Enfim, voltando ao futebol. Tanto Gabigol, do Santos, quanto o Gabriel Jesus, do Palmeiras, parecem seduzidos em ficar pelo menos mais um pouco em seus clubes de origem. Fazem muito bem. Ganham tempo para se tornarem ídolos de torcidas e terão todo tempo do mundo para se encher de dinheiro, que é a grande motivação para ir para a Europa.

São dois ótimos jogadores. Não vejo ainda em nenhum deles aqueles traços ou lampejos do craque, o jogador totalmente diferenciado, que já se via em Neymar, para ficarmos no caso mais recente. Para quem acompanhou a carreira de Neymar, desde o tempo em que o técnico Vanderlei Luxemburgo o chamava de “filé de borboleta”, era claro que, salvo acidente de percurso, se tornaria um jogador ímpar, uma daquelas raridades do mundo do futebol. Não deu outra. E, por consequência, voou, numa transação ainda envolta em sombras e mistérios nebulosos, para usar eufemismos.

De qualquer forma, que eu saiba, as negociações com o mercado europeu foram escassas, de uma maneira geral, para o futebol brasileiro. Já vi gente se lamentando, o que não seria novidade na terra do Complexo de Vira-latas.

Mas há quem diga que o Brasil já não produz mais tantos jogadores atraentes para o mercado externo como fazia anos atrás. Nisso eu concordo. Pode ser questão de safra? Pode. Mas acho que o buraco é mais embaixo, como se diz. Entendo que, como acontece com todo o sistema extrativista, este também chegou à exaustão. Acontece com as minas de ouro e outras matérias-primas. Você vai tirando, tirando e, de repente, percebe que acabou. Ou que rareou tanto que já não é mais economicamente viável. Para o importador, é preciso ir a outras minas, mais rentáveis e virgens. O antigo Eldorado é relegado às traças e torna-se decadente.

Acho que o que vemos em campo (e também com a seleção brasileira) é resultado dessa política de extrativismo primitivo. O baixo nível do futebol local já não permite mais o surgimento de um número significativo de talentos. As categorias de base dirigem-se diretamente à exportação. O baixo nível dos torneios internos rebaixam também o nível dos participantes, assim como o grau de exigência do público. Tudo piora. E fecha-se o círculo vicioso, numa acomodação de nível inferior ao que se estava habituado.

O círculo virtuoso, pelo contrário, alimenta-se de si mesmo. Mais pessoas praticam o esporte, e ele se torna cada vez mais seletivo, exigindo sempre mais dos melhores. Estes tendem a se tornar cada vez melhores, pois jogam contra adversários tão qualificados como eles. A seleção nacional fica boa apenas porque reflete essa qualidade existente nos torneios normais disputados no país. É como um ecossistema, cheio de vida e variedade. E este foi destruído no Brasil.

Como vivemos de migalhas, é bom que nos alegremos com este simples fato de que duas das melhores promessas do futebol brasileiro resolvam dar mais um tempo por aqui. Logo, eles serão convencidos por “empresários” de que é melhor partir o mais rápido possível. Gabriel Jesus, ao que parece, já foi sondado pela agência de Ronaldo, que, como se sabe, não é de rasgar dinheiro ou alimentar idealismos.

E, logo logo, esses empresários contarão com ajuda ideológica da mídia amiga, que dirá que, sim, é melhor para eles irem o quanto antes para a Europa, porque aqui não poderão se desenvolver.
Enquanto isso não acontece, vamos aproveitar.
Carpe Diem.

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